Enquanto
isso, eles vivem
Gandhia Brandão
A criança foi deixada na
escola às 7h30. Antes disso, acordei, quis morrer umas três vezes, olhei o
telefone, naveguei, enrolei, levantei resmungando, fiz xixi, escovei os dentes,
lavei o rosto, troquei de roupa, arrumei o cabelo, acordei a menina, abracei,
beijei, chameguei, escutei reclamação, desci, fiz café, preparei o café da
manhã, são coisas diferentes, comemos juntas, ajudei a arrumar o cabelo da
criança pré-adolescente, lavei a garrafa térmica, enchi a garrafa térmica de
água, perguntei algumas vezes se os materiais do dia estavam todos na mochila,
pensei em quais tarefas domésticas faria depois.
Se eu começar a revisar texto
agora, vai render bastante. Mas tem roupa para estender, melhor lavar a louça
do café e estender essa roupa logo. Se bem que tem que trocar a roupa de cama e
aspirar os quartos. O lixo. Tirar os lixos dos banheiros, eca... Ah, vou olhar
o telefone. Nossa, já são 8h40! Vou revisar. Credo que texto chato. Nem... Será
que o casaco da Rosa está limpo? Gente... Que ridículo esse cara me mandando
mensagem. Dá não. Amiga, olha isso: lembra aquele cara que... Ah, vou mandar
mensagem, não. Vish... Tenho que caminhar, pelo menos. Engordei de novo... Será
que vou ter de dar aula em escola fascista de novo? Esse resultado do concurso
que não sai nunca... Acho que vou estudar um pouco de música. É, 11h04 já. Vou
ter que pedir comida. Pelo menos cantei bastante. À tarde eu estendo a roupa.
Eita, hoje Rosa tem consulta com o otorrino. Vou estender agora.
Corri e consegui estender a
roupa, lavar a louça e tomar uma duchinha. Almoçamos num self-service,
fomos para a clínica. Demorou. Consulta, exames. Lanchinho, mercado. Chegamos
em casa já mais para o fim da tarde. Descanso de leve. Rosa foi brincar um
pouco com a amiga. Voltou e fui ajudar com o dever de casa.
É uma vida de privilégios? É
uma prisão? É uma armadilha? É uma opção? O que é? Estou desempregada. Tive que
lembrar a menina de ir tomar banho. Aí, aquela reclamada básica e a pergunta
sobre o porquê de se tomar banho todos os dias. Todos os dias. Preparei o
lanche da noite. Comemos, conversamos. Ela foi ver os vídeos dela. Eu fui ver a
série do momento e me preocupar à toa tentando anestesiar o cérebro para sobreviver.
Hoje é segunda. Sábado eu
tenho ensaio de um grupo, aula de outro e apresentação de outro. O pai da
menina estará viajando. Vai ver o pai dele. Umhum. O pai dele mora em
Pernambuco. Ele avisou dessa vez. Tem vez que nem ficamos sabendo. Fico
pensando se estaria nessa situação de desemprego e desespero se as tarefas
fossem divididas. Ele não gosta que as coisas tenham que ser feitas “do meu
jeito”. Eu não sei se o jeito é “o meu jeito”. Dormir antes das 22h porque
estuda de manhã é “o meu jeito”? Não almoçar fast food dois dias
seguidos é “o meu jeito”? Não deixar de tomar banho ou escovar os dentes, respeitar
um momento de cansaço da menina, verificar se tem dever de casa e proporcionar
o momento tranquilo de fazer, não jogar até de madrugada durante a semana, dar
o remédio no horário do remédio, essas coisas são “o meu jeito”?
Eu já quis coisas de um jeito.
Hoje nem sei muito bem qual é esse jeito que deveria ser meu. Estive buscando,
tinha encontrado, deixou de servir, recomecei a busca. Bora pra próxima. Enquanto isso, os homens
parecem estar bem soltinhos por aí, fazendo o que querem, quando bem entendem,
do jeitinho dominador de sempre. Dizem que estão perdidos. Sei não... Dominação
pode ser uma questão também de forma.