Cultura
Popular, Machismo e a Resistência das Mulheres – impressões não tão pessoais
Gandhia
Brandão
Em
2018
comecei a me aventurar pelo infinito e riquíssimo mundo da Cultura Popular
Brasileira mais “formalmente” entrando num grupo, já que sendo brasileiros
nascemos inseridos nessa tal Cultura Popular. Será? Bom, eu, felizmente, sim. Família
pobre do Piauí e de Goiás me proporcionou contato com muita beleza artística e
intelectual, o que me instigou a buscar e querer sempre mais, mesmo sem poder
muito. O tal do “ir além” que nos é tão caro enquanto curiosos desse fazer
artístico. Até cantora de ópera cheguei a ser, mas isso é outra história de
outra cultura que já foi popular em outra época. Continuando aquela aventura,
quanta descoberta linda venho tendo o privilégio de ter até hoje, viu? As
mestras e os mestres costumam ser generosos e fazem questão de transmitir o
conhecimento imenso que possuem, seja oralmente, em registro escrito,
audiovisual, em práticas, etc., saberes rizoma que se reterritorializam por aí
afora. Lindo, né?
Só que calma. A Cultura
Popular não é um mundo apartado do planeta. Sendo assim, todas as problemáticas
contra as quais nós, de esquerda, lutamos e que tentamos mitigar existem iguaizinhas
nos grupos. E mais: muitas vezes pulsam mais forte naquelas pessoas que bradam
aos quatro cantos sobre o quão nocivas as problemáticas são.
É grupo de gestão horizontal
que tem claramente um único líder e não ouve outras vozes, silenciando a
maioria. É grupo feminista que reproduz tanto ou mais machismo em determinadas
situações que grupo que não levanta essa bandeira. É grupo que levanta a
bandeira da luta contra a desigualdade racial/social mas cobra uma mensalidade
caríssima sendo inacessível, portanto, só tem membros brancos de classe média
alta. É grupo cujo líder defende a multiplicidade de técnicas, mas elege seu séquito
honrado e honroso para ocasiões especiais. Mil tretas. Normal. Grupos são
feitos por pessoas e pessoas são cheias de contradições, nem só Apollo ou Baco,
mas Apollo e Baco e Oxum e Yemanjá e Iansã e Nanã e Oxóssi e Xangô e Omolu e
Oxalá e Ogum e Exu e e e...
Só que calma de novo. Há
limites? Creio que sim. Aí a pessoa que vai decidir se vai permanecer naquele
grupo ou não, né? Se vai colocar a cara juntinho numa apresentação, num palco
ou não, né? Ah, eu sei que fulano é super machista, mas eu passo pano, pois só
ele ensina isso. Ah, eu sei que fulana foi líder de um esquema de pirâmide que
prejudicou muitas outras mulheres, não faz diferença, vou ter aula com ela
assim mesmo. Ah, eu sei que fulano já bateu numa ex-namorada, mas é coisa do
passado, não tem problema tocar junto. Ah, eu sei que fulana simpatiza com o
fascismo, mas ela é gente fina, tudo bem tocar com ela. Ah, eu sei que fulano
não paga pensão, a mãe dos filhos é mega sobrecarregada e abriu mão de ser
batuqueira por conta de trabalho e maternidade enquanto fulano vive de boas,
mas todos temos direito de correr atrás de nossos sonhos, o que tem a ver tocar
junto? Eu, hem...
Interessante é quando começa a
conversa “somos um coletivo e vamos resolver juntos”. Mesmo? Depende muito do assunto.
A relativização será maior ou menor de acordo com a conveniência. Datas, horários,
locais, eventos até vai. Mas cachê... Questões relacionadas a feminismo, racismo,
classismo, LGBTQIA+, gordofobia, etc. Ai, ai... Cada papo raso sobre “leia
Lélia Gonzales e leia Krenak” que dá pena. Assumir um posicionamento e defender
é para poucos. Jogar para o outro quase todo mundo faz. Assumir a
responsabilidade sobre o que se fala exige coragem e alguma coerência entre o
que se fala e o que se faz, no mínimo, na base do tentar, já que é difícil para
uma porra. Mas assumir.
O encantamento da Cultura
Popular é ao mesmo tempo mistério e revelação, pois é simples. Na simplicidade
daquilo que se é, de ser, é que a gente se identifica com nossas origens, com
algo que foi perdido, com algo que nunca havia sido achado, com algo que nasceu
a partir dali, com algo que ainda vai surgir. Todavia, nunca é fingido. É
escrachadamente jogado em nossa cara o que sai das vísceras tanto de quem faz
quanto de quem vê. Não tem como mascarar mesmo de máscara. O instante acontecimento
revela misteriosamente o que cada um é na impermanência do ser. Desse modo, não
adianta tentar ser o que não se é dentro de um grupo de Cultura Popular. Melhor
seria se quem não sabe ser ou não gosta do que é ficasse caladinho, só
aprendendo. Mas aí não ia ter treta.
Desinteressante são algumas
justificativas. Apesar de serem reais as investidas de religiões neopentecostais
(nossa, lembrei de um ex-colega que me mandou pesquisar sobre isso e não tinha
a menor ideia do que se tratava, mas era de escola, isso também é outro babado),
então, apesar de serem reais as investidas ostensivas de instituições religiosas
neopentecostais em lugares onde as práticas culturais ligadas a religiões de
matrizes africanas surgiram, portanto, afastando pessoas desses lugares que vou
chamar de originais, essa realidade não pode se configurar como acomodação.
Está havendo o embranquecimento das práticas de Cultura Popular e das próprias
religiões de matrizes africanas por conta de recortes de classe, portanto
também de raça, mas e aí? Deixa pra lá? Lógico que não. Aí é que entram as
mulheres, especialmente as mulheres negras e seus belíssimos aquilombamentos (peço
licença para citar breve e humildemente o termo na tentativa de aprender).
As mulheres observam o mundo,
os grupos, os grupos no mundo, percebem demarcações de sexo, de gênero, de
raça, de classe e vão se reorganizando. Formam novos grupos só de mulheres ou
liderados por mulheres com novas formas de funcionamento. Não é fácil, não,
obviamente. No entanto, buscam resistentemente suas independências quebrando paradigmas
e refundando tradições centenárias. É dolorosamente lindo. Podia ser só
lindo...
Claro que há questões internas
entre mulheres que precisam ser resolvidas. Resta saber se somente entre as
mulheres ou na sociedade ou sei lá. É confuso. Parece que a maldade entre
mulheres ultrapassa o campo pessoal. Se forem artistas, então, fica ainda mais
complexo, pois num país desigual como o nosso, o ditado “Farinha pouca, meu
pirão primeiro.” é perfeito para demonstrar o cotidiano bélico dos artistas de
ofício.
Uma mulher participa de um
grupo há alguns anos. Outra mulher entra para exercer a mesma função musical a
convite do grupo. A antiga deve passar os conhecimentos para a novata, certo? A
antiga não ensina nada e fica brava quando a novata não conhece algo do
repertório; não divide as tarefas e se queixa constantemente de sobrecarga; insiste
para ex-integrante do grupo voltar a exercer aquela função em vez da novata;
pede para a novata não fazer as coisas que haviam sido combinadas e depois pede
para não fazer as outras coisas que foram combinadas no lugar das que não
deveriam ser feitas anteriormente; diz que está muito alto, depois diz que está
muito baixo, ou seja, nunca está bom, mas não diz como deve ser para que fique
bom já que tudo é "fluido"; não aceita nenhuma sugestão, mas se queixa sobre
falta de proatividade; nunca pode ter ensaio de naipe com a novata, mas com
outras pessoas, pode; critica até o que não existe, mas não aceita nenhuma dicazinha
da novata; abaixa o volume do amplificador com justificativa de que a execução
da novata é muito potente; sempre que a novata tenta conversar, é silenciada
por frases do tipo: não é nada disso, você está interpretando errado, isso nunca
aconteceu, você viajou, isso é seu ponto de vista. A novata tenta falar sobre
algumas dessas coisas com outros integrantes do grupo e igualmente não é levada
a sério.
O grupo reivindica revoluções
na cidade e na cultura através da brincadeira e da invenção. Pelo visto, foda-se
se dentro do grupo a revolução ainda não aconteceu, né? Bora continuar sendo
escroto internamente e melhorar só o que é de fora. Parece igreja. Incrível é começar
a duvidar de si, mesmo tendo reconhecimento de outros mestres de outros estados
do Brasil, reconhecimento de quem te assiste performando, reconhecimento de tanta gente, menos
de gente que é do tal grupo de que você participa, mas do qual você nem se
sente parte, pelo menos não daquele setorzinho. O líder do grupo? Nunca se posiciona. Tem
uma Eliane Dias ou uma Pilar Del Río cuidando de absolutamente tudo para ele do
jeitinho que ele quer. Repete até as mesmas palavras. Doou sua existência para o projeto de um homem. Finalmente você entende
que não pode mais continuar ali, mesmo tendo outros setores no grupo maior dos
quais você gosta muito, em que você não era novata, e mesmo você sendo
entusiasta do trabalho em geral. Tem coisa que deixa de fazer sentido, que
perde a liga, que fica insustentável. Assumo e parto. Responsabilidade toda
minha, claro.
O foco aqui não é o grupo.
Grupos são imensos e sempre serão cheios de bagunças. Isso já foi dito. O foco
aqui é a violência de uma mulher para a outra e como isso é contrário ao movimento
corrente da Cultura Popular contemporâneo de resistência e refundamento promovido por mulheres. Ouso dizer que é contrário a qualquer intenção de melhorar o mundo,
de fazer arte, de existir. Talvez seja sobre como conduzir, ser conduzida, se
deixar ou não se deixar conduzir. Talvez seja sobre respeito, sobre limites e
sobre aceitação. Enquanto não entendermos e colocarmos em prática o “nós por
nós” elegendo prioridades que nos beneficiem coletivamente e que estão muito
além de poder, status e dinheiro – ilusões do capitalismo – não vamos modificar
nem um milímetro do sistema patriarcal e vamos continuar sendo massacradas e
nos massacrando. Resistir e não ceder à lógica vigente vai impedir muita
crueldade e nos fazer caminhar para nossa utopia de equidade em que nenhuma
mulher seja oprimida por outra em nenhuma ocasião, especialmente no campo
sensível da música.
Vou traduzir antes que comecem
a falar merda: artistas mulheres têm de ganhar dinheiro e ser muito poderosas,
sim. O que eu disse é que isso não pode vir às custas de massacrar outras
mulheres. Tá? Tem pra todas.
Tantas maneiras de resolver.
Precisava disso? Ciclo encerrado, bora pra próxima.
Sobre a resistência da Cultura
Popular geral ao avanço fundamentalista neopentecostal, é organização, é estudo,
é alerta e é ação. Nada de poxa, que pena.
28 de
Março de 2023