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quinta-feira, 28 de março de 2024

 

Natal 2023

Gandhia Brandão

Neste ano, não fingi.

Não sei se está sendo bom para minhas filhas, principalmente para Rosa. Estou com medo de estar sendo firme em meu propósito de não a proteger ofertando-lhe a imagem de um pai que nunca teve ou só teve graças a meu esforço descomunal. Não sei se está sendo melhor pra ela ou pra mim. Não sei se esse desespero que sinto se deve ao pavor de assistir minha filha sentindo a dor do abandono que eu tanto tentei evitar. Ou se o rebuliço de estar deixando o papel de vítima de abuso é tão confuso e perturbador que ainda não sei existir sem ser alvo.

Eu sempre detestei a frase: não me coloco em papel de vítima. Como se ser vítima fosse admitir fraqueza e admitir fraqueza fosse algo errado. Eu sou vítima. Uma parte de mim sempre soube e ficou em silêncio acreditando que estava fazendo um bem para a filha ao esconder isso dela.

Quando ela começou a falar sobre algumas atitudes parecidas com as que o pai realizou contra mim, uma sirene foi acionada dentro de mim e um processo muito doloroso começou a terminar de acontecer: a libertação.

Eu saí do casamento há seis anos. No entanto, segui submissa como divorciada de maneira sutilmente sofisticada. Como eu saí destruída - um verdadeiro nada, um farrapo, passei anos perseguindo subempregos com remuneração patética me sentindo apavorada a cada final de ano sem saber se teria emprego no ano seguinte. Era o que me restava. Uma doutora fracassada tentando se reerguer.

Eu tinha medo de receber, a qualquer momento, como recebi do pai da filha mais velha, uma intimação para audiência sei lá das quantas que trataria de redução de pensão alimentícia, ou seja, além de tentar evitar qualquer constrangimento para minha filha no sentido de decepção ou ansiedade de espera, eu fazia questão de manter um padrão de vida decente e achava que não deveria questionar nada nunca para evitar que ele ficasse zangado e usasse a arma financeira contra mim, algo que ele nunca havia feito, até que eu comecei algum embate, como previ. Se ofereceu para fazer declaração de IRPF, se ofereceu para fazer empréstimo com juros mais baixos e, quando eu finalmente reivindiquei alguma coisa, que, honestamente, foi irrisória diante do montante suportado por mim, fez questão de lançar aos quatro cantos.

O abuso... Ele estava ali o tempo todo. O abusador não vê ninguém além de si. Oferece algo que supostamente é ok e depois acusa a gente de tê-lo prejudicado.

Fez dívidas durante nosso casamento comprando terreno sem me consultar, comprando carro sem me consultar, abrindo empresa e me avisando numa situação de encurralamento. Administrava o dinheiro da família fazendo planilhas que não contemplavam as necessidades de todos, pensando somente nas dele e me acusa de atrapalhar a vida financeira dele até hoje porque eu gastava com mercado e roupas sendo que essa conversa já aconteceu 300 vezes e até desculpas por algo que nem é minha culpa eu já pedi (o detalhe de que eu nunca comprava nada caro sem pedir autorização jamais é lembrado por ele, lógico).

Volta e meia eu me lembro de um absurdo do tipo: foi levar a filha para uma atração de patins no gelo, ela estava tentando patinar sozinha de blusa de alcinha, congelando e ele se divertindo horrores do outro lado do ringue, nem “tchum” pra ela. Cheguei para buscar a menina no horário combinado, não me respondia, não me atendia. Tive que entrar na atração para resgatar a criança.

Eu nunca marcava nada nem antes, nem depois de algo combinado com ele, pois era garantia de que não iria conseguir realizar. Ao passo que minha filha foi crescendo, comecei a ter que ficar de plantão durante o tempo em que ela estava com ele, pois a qualquer momento ela poderia me convocar para buscá-la. Assim, foram se distanciando até chegarmos ao ponto em que ela não quer mais vê-lo. Tentei alertar inúmeras vezes, sempre recebida com desdém, agressividade e intolerância. Até que as retaliações começaram. Hoje, não fala comigo sem a presença advogada.

Estou aqui reflexiva, me sentindo triste, culpada e angustiada porque minha filha vai acordar e viver um Natal de merda, que é também o aniversário dele.

Eu já detesto essa data que nos obriga a celebrar algo que não tem nada a ver com nada e que não nos move internamente de maneira alguma. Sempre foi uma "festa" forçada, todavia, parece que o fingimento fazia mais sentido que ser de verdade. A frase "a verdade dói" está fazendo muito sentido neste segundo. Dói. Eu vou ter que lidar com essa dor e tentar fazer esse dia ser, de alguma maneira, alegre para minha filha.

Espero que a filha mais velha consiga vir e que possamos dar risadas de bobagens, dos gatinhos, de qualquer coisa. Espero que a comida fique gostosa e que possamos ouvir música, cantar, tocar e trocar afetos.

Sobre aquelas pessoas que me magoaram tanto e que eu já chamei de mãe, irmãs, sobrinhos... Eu ainda não processei totalmente. Acho que coloco no mesmo patamar. Ainda não sei se fingir era melhor ou pior. Só sei que não estou com dor de barriga nem crise de ansiedade apavorada imaginando que agressões vou receber no evento em que não quero estar com pessoas que me detestam e das quais nunca vou conseguir aprovação.

Não quero mais ser parte daquilo. Isso é bom. Pelo menos pra mim.

Não sei se é bom para minhas filhas. Ainda fico confusa com isso.

Ainda estou um pouco perdida por saber que não tenho com quem contar. Não sinto o peso de ter que agradar quem nunca vai ser agradado, mas sinto um outro peso, que é o de carregar a responsabilidade sobre minhas filhas sozinha.

Contudo, eu sempre fiz isso. Só achava que não.

        

24 de dezembro de 2023

 

 

 

 

2023 não foi terrível, só doeu

Gandhia Brandão

Eu passei a virada de 2022 para 2023 sem minhas filhas, na prainha, com muita alegria e esperança de um ano bom, de um ano meu. Foi meu. Ainda não posso chamá-lo de bom, mas acho que o chamarei no futuro.

Rosa não quis ver os fogos, não quis fazer nada.

Clara estava, eu não me lembro onde Clara estava. Eu havia decidido e estava tentando muito não deixar de fazer coisas que são importantes para mim. A virada de ano é importante para mim. Um momento de reza, de projeção e de passagem. Eu preciso e gosto desse símbolo.

Ela ficou em casa. Eu fui. Fiquei pouco tempo e voltei pra casa assim que terminaram os fogos.

Hoje, às vésperas da próxima virada, tento me livrar da invenção de uma culpa: se não tivesse deixado a menina, o ano não teria sido tão duro com ela. Quanta arrogância...

No dia primeiro, posse de Lula, participei quase do jeito que eu queria. Fui cedo com Rosa, abrimos o evento com um cortejo emocionante. Ela estava feliz. Foi lindo. Não conseguiu ficar muito tempo. Não consegui deixá-la com a irmã e voltar. Assisti ao restante de casa, quase satisfeita, ainda mais decidida a não deixar de fazer coisas que são importantes para mim.

Tinha planos de continuar firme nas atividades físicas, na terapia, na alimentação saudável e na profissão de artista. Estava aguardando a convocação para o cargo de professora da SEEDF.

A vida olhou meu planner e rabiscou tudo.

Saí do grupo de cultura popular que integrei por 5 anos com um ciclo bem encerrado dentro de mim, consciente de que ali não era mais um espaço em que eu podia brincar feliz, portanto, não fazia mais sentido.

Tentei outros dois grupos. Um não deu certo, não combinávamos. O outro poderia ser, mas precisei de um intervalo e quando pude voltar, o grupo estava em crise. Não foi.

Enfrentei uma crise grave de depressão. Superei.

Tive um namorado que era casado e cuja esposa estava grávida - obviamente eu só descobri depois que terminei.

Recomecei a estudar música. Que delícia!

Fui convocada para o cargo dos meus sonhos, ainda melhor que o que eu estava esperando. Que incrível!

Meio do ano. Parecia que eu estava finalmente conseguindo não deixar de realizar coisas importantes para mim. Uma sensação de que algo iria dar errado. Deu.

Será que foi porque eu fiz uma promessa e não estou dando conta de cumprir? Eu vou cumprir por etapas. Além disso, eu fiz a promessa pra mim mesma. Eu tenho esse poder tão grande de estragar minha vida desse jeito? Acho que não, heim...

Rosa entrou em depressão. Começou a sofrer para ir para a escola. Desenvolveu ansiedade, teve episódios de pânico. Eu estava atenta porque ela havia sofrido dois ataques de bullying, um no condomínio, no final de 2022, que a isolou em casa; outro na escola, no final do primeiro semestre de 2023, que a isolou na sala de aula. Ela estava em terapia e eu sempre dando apoio. Tinha esperança de que conseguiria vencer essas dificuldades sem maiores problemas. Todavia, foi muito para ela. A escola vinha sendo negligente com algumas pequenas coisas desde o início do ano, mas estávamos conseguindo manejar. A partir da crise de depressão, um desastre, muito desrespeito. Rosa criou aversão ao ambiente escolar.

Parei tudo.

Dediquei todo o meu tempo, toda a minha energia à Rosa.

Ela e Clara são o que há de mais importante para mim.

Não tem música, atividade física, festa, nada mais importante que elas.

Minha filha precisou de ajuda. Estava perdendo a conexão com a vida. Estava em sofrimento.

Ela, bravamente, superou.

A crise de Rosa nos levou a buscar explicações para algumas outras peculiaridades que vinha apresentando. Estou tendo dificuldades enormes para conseguir encontrar profissionais competentes que possam avaliar uma adolescente com tais especificidades e traçar um caminho de auxílio, caso precise.

Muita angústia, dúvida, sobrecarga, ansiedade, decepção, perda de tempo, percepção de misoginia nos atendimentos... Entretanto, muita vontade de acertar e de ajudar minha filha. Persisto. Aprendi muito sobre as possíveis condições que ela possui e creio que consigo lidar com mais tranquilidade com as situações que derivam delas.

Rosa vem lidando com o processo de busca por diagnóstico com muita elegância. Curiosa e questionadora, mas sempre colaborando e ajudando nos momentos em que quebramos a cara (não foram poucos). Clara tem se perguntado sobre a possibilidade de também estar no espectro e uma nova busca está sendo iniciada.

No meio desse caos, tive que frequentar escola junto com ela para que ela conseguisse terminar o ano letivo, o que ela fez com muita garra,  enquanto me adaptava às várias novas atividades e funções do meu novo emprego, o que tanto desejei e cuja estreia curti como consegui. Até fiz amigos muito lindos.

Rosa começou a estudar piano e tocou lindamente num recital. Faz aulas de xadrez. Ganhou dois gatinhos. Está se interessando por livros. Ganhou um quarto de adolescente que ficou um arraso! Para isso, organizei várias coisas aqui de casa e fiz algumas coisinhas que sempre quis fazer.

Encontrei um amigo anjo que a recebeu em sua Sala de Altas Habilidades, o que foi um alento para ela.

Alguns amigos se afastaram, outros se distanciaram, mas continuaram cuidando de longe. Um movimento natural de quem muda de ambiente. A afirmação de quem é e quem não é.

Rompi com aqueles que chamam por aí de família enquanto eu chamo de veneno. Nunca mais vou permitir que ultrapassem meu limite ou o de minhas filhas. Só terá espaço em minha vida quem eu decidir que merece. Contato zero e no processo de desocupar minhas memórias das lembranças dessas pessoas.

Para dar aquele tempero errado, o pai de Rosa resolveu dar birra, me enfrentar, ser bem escroto com a filha e atrapalhar bastante em vez de ajudar. Contudo, me mantive firme em meu propósito de não mais intermediar a relação deles maquiando as falhas do homem para o conforto de Rosa e meu desespero. Não esperava, nem desejava que essa tomada de consciência de Rosa fosse tão cedo, muito menos num momento tão delicado, mas não tive como controlar. Enfrentando advogada e refazimento de acordo judicial.

Rosa voltou a socializar no condomínio e também tem um grupo de amigos de fora com quem conversa, sai e se diverte.

Tentamos uma mudança de endereço para tentar frequentar escola pública que supostamente seria mais sensível a questões de neurodivergência, mas a vida novamente ditou as regras e ficamos por aqui mesmo.

Ainda estamos assustadas com a péssima experiência da escola de 2023, porém torcendo muito para que a nova escola seja acolhedora e que Rosa seja muito feliz por lá.

Parece que havia muita coisa para arrumar, para limpar, para organizar. Faxina até de pessoas. Parece que eu consegui muito disso. Talvez, não tudo. Mas bastante. Inclusive, percebo que venho conseguindo lidar com situações de desconforto com mais tranquilidade, um sonho antigo.

Tenho bons planos para 2024, tenho boas perspectivas. Tenho fé. "A fé não costuma faiá."

Sendo assim, analisando com calma, não foi um ano ruim, só foi um ano de mudanças e mudar é doloroso.         

31 de dezembro de 2023

 

 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

 

Agora só falta você?

Gandhia Brandão

Descolada de mim. Rosa me perguntou se eu iria mesmo querer uma nécessaire. Não era o objeto. Era o que ele representaria, o gesto. O que eu fiz de errado, gente? Ontem eu mandei um vídeo de Instagram para uma amiga ainda não tão íntima, mas que amo. Eu tenho essa mania de amar as pessoas. Tenho que parar com isso (?). O vídeo era sobre não ter pressa após parir. Mostrava uma mãe falando que o pós-parto dura pelo menos sete anos, que nós não nos recuperamos do baque em menos tempo, vou chamar de baque, sim. Antes disso, portanto, não deveríamos ter pressa de nada, tipo de ficar bem (?). Sei lá, de voltar a trabalhar freneticamente ou de ter o sono regulado ou de estar no peso tal ou de poder ir para uma festa ou de conseguir uma rotina ou de ter a casa organizada ou de conviver com pessoas tais ou de fazer um curso tal ou de frequentar um lugar tal ou de fazer tal viagem etc. Minha filha Rosa fez 10 anos essa semana. Eu estou desempregada há 8 meses e venho repensando seriamente sobre ritmo de trabalho. Nem... Eu trabalho desde os 16 anos... Vou fazer 43 em setembro. Espero já ter emprego até lá. Minha amiga não tão íntima é companheira (assim que eles se chamam, acho legal porque me lembro de Lula) de um grande amigo que amo muito. Eles vivem de maneira livre, amorosa, com muita parceria e têm uma mini lindeza de quem ainda não troquei a fralda. Eu os admiro imenso. Estou ouvindo “Dindi” na voz de Gal, mas antes estava ouvindo o álbum “Rita Lee em Bossa’n Roll”, ela que se livrou desse planeta hoje, pelo menos anunciaram hoje. Uns posts divulgam a data de ontem como data da morte. Eu não tenho medo de morrer. Tenho medo da dor, eu acho. Muito mais da dor de não fazer coisas que quero. Hoje doeu muito. Quando eu vi o filme sobre a vida de Elis Regina, eu fiquei muito triste também. Acho que foi a primeira vez que entendi que eu podia querer cantar. Eu já tinha assistido a filmes sobre cantoras, tipo o da Piaf e o da Callas. Pensava que não tinha a ver comigo, pois era muito sofrimento a enfrentar para estar num palco. Não sei bem quando vi o da Amy Winehouse. No caso dela o sofrimento era consequência do palco. Estou aqui pensando que talvez sempre haja sofrimento e que nem sempre tenha a ver com cantar ou com palco. Uma mania de querer organizar umas coisas antes de fazer outras. Ou talvez tenha havido coisas demais e não consegui... Gosto de datas comemorativas e nunca tive gente ao meu redor que fosse “cafoninha” como eu. Não tive pai. Minha mãe nunca tinha tempo, nem dinheiro, nem vontade. Hoje ela adora e celebramos juntas muitas dessas datas. Meus dois maridos, nada companheiros, apesar de eu falar, celebrar as datas que eram deles, de nossas filhas e de todos em volta, não me celebravam. Não serei injusta e vou dar créditos ao segundo marido que fez uma ou outra coisa no primeiro ano de relacionamento, talvez no segundo ano. Ao todo, foram nove anos. Com o primeiro marido, foram 11 anos. Gente... por quê? Tá... já passou. Tanta conversa com Clara e Rosa. Tantas homenagens e festas e presentes e cartinhas e composições e momentos de exaltação de cada uma, das duas, de nós. Em que momento deixei passar que essas “cafonices” são importantes para mim? Elas têm a liberdade de não participar de eventos ou rituais que não fazem sentido para elas. Conversamos, debatemos sobre temas complexos, polêmicos e nos damos escolhas diversas. Tentamos estar entre um modo de vida “tradicional” e nossa utopia de uma organização social justa, livre e igualitária. Frequentamos algumas instituições como escolas, cartórios, hospitais etc., tentando entender como elas funcionam e como poderiam ser mais bem administradas, além de criticar ferrenhamente outras instituições e imaginar como o mundo seria bem mais interessante sem a existência delas. Inclusive, temos cada uma sua própria utopia e rimos muito das nossas crises existenciais assim que passam. Certamente temos momentos coletivos descontraídos. Brincamos, jogamos, ouvimos música, assistimos a filmes e séries (elas assistem a animes), cantamos, passeamos etc. Rosa é livre para não achar nenhuma graça na comemoração do Dia das Mães na escola. Todavia, se ela me diz que sou a pessoa mais importante do mundo para ela, como não percebe que eu acho muita graça nesse evento brega, desorganizado e abafado cuja apresentação dos alunos é quase cômica? Ela simplesmente ignorou o bilhete da escola sobre a lembrancinha. Se eu fosse ao evento, seria a única mãe que não iria recebê-la. Provavelmente eu não iria chorar tanto se não estivesse trocando de antidepressivo. O início da queda de humor foi semana passada. Eu acho. Venho segurando tanta barra desde tanto tempo que nem sei mais. Mas chorei. Chorei muito. Chorei e me lembrei de coisas das quais nem queria ter me lembrado. A primeira foi Clara não abrindo a porta da casa dela para receber Rosa e eu poder voltar para a Posse do Lula sendo que tínhamos combinado uma semana antes, confirmado um dia antes e nos falado 20 minutos antes quando eu e Rosa ainda estávamos na Esplanada. Eu fui cedinho com Rosa e participamos do Cortejo de Abertura da Posse, ok. Mas não era só isso que eu queria. 10 anos de luta e, dentro deles, 6 anos de LUTA. O Dia da Posse era o DIA DO GOZO. Era importante para mim. Eu tinha vontade e necessidade de estar com minhas companheiras e companheiros de batalhas. Em 20 minutos, Clara dormiu e não abriu a porta. Almocei com Rosa e voltamos para casa. Nesse dia eu prometi a mim que nunca mais deixaria de fazer nada por conta de filhas. Pensem antes de desdenhar: isso é diferente de deixar de cuidar. Eu estou desempregada, contudo, estou fazendo várias coisas que sempre quis fazer e não me dava o direito: aula de violão; aula de teoria musical para tentar vaga como aluna de percussão na Escola de Música, o que vou fazer em breve; exercícios regulares de canto; análise, algo que simplesmente não conseguia; tentativas de atividade física, a análise vem ajudando; muita reflexão e busca de autoconhecimento; namorar, aprender a ser amada e ser cuidada. Eu conseguia ler, estudar uma coisinha aqui outra ali, fazer uma ou outra aula, porém com tanto esforço e depois de me dedicar tanto aos outros que parecia que eu nem tinha que estar ali, sabe? Ah, venho igualmente buscando experiências com outros grupos de Cultura Popular. Não sei se vai dar certo. Estar em Seu Estrelo e na Orquestra Alada nos últimos 5 anos, mesmo com todas as questões, foi uma oportunidade incrível de reconstrução de identidade e de libertação em amplo sentido, inclusive no sentido do direito de existir, brincar, tocar, cantar e esquecer do resto do mundo. Enquanto ali estive, ali era meu lugar, até deixar de ser. Sou grata. Talvez esse ciclo de estar em grupos tenha se encerrado. Estou me observando. Acho que quero cantar num grupo de cantoras ou fazer um trabalho solo ou ambos. Ainda não sei muito bem. Só sei que a primeira vez que fui cantar, eu era adolescente e foi numa instituição religiosa. Eca. Primeiro fui tocar violão para a “evangelização” das crianças, depois fui tocar e cantar para os jovens. Fiz aulas de violão e de canto em outra instituição religiosa. Participei de um grupo de serenatas. Durou pouco. Não entendia o que era a profissão musicista. Não sabia o que era Vestibular. Não sabia o que era uma Universidade Federal. Não sabia o que era desigualdade social. Não sabia que ser a melhor aluna de uma escola pública de Taguatinga era o mesmo que nada num Vestibular de UnB na era FHC. Não tinha a menor ideia de que iria ser humilhada diariamente por minha mãe na rua, na chuva, na fazenda por um ano inteiro porque não consegui passar no Vestibular para o curso de Letras duas vezes sendo que eu não sabia nem o que era nota de corte. Tive um professor cretino de matemática que tinha um bigode horrível e que nem dava aulas, que falou que se algum de nós tivesse condições de pagar por pelo menos dois cursinhos preparatórios, podia ser que houvesse possibilidade de entrar para algum curso desses não tão concorridos. Fiquei com ódio, mas foi quase o que aconteceu comigo depois que descobri o que era cursinho. Por um dos cursinhos eu trabalhei e paguei. Não adiantou muito porque eu mal conseguia assistir às aulas noturnas, já que nunca saía da merda do shopping center no horário real de saída. Até chegar na satélite depois do engarrafamento... O outro minha avó paterna pagou com muito sofrimento (não tive pai, tive avós paternos até uma certa idade). Quando atrasava o depósito por um ou dois dias, minha mãe vinha brigar comigo. Eu estudava de 7h da manhã ao meio-dia. Voltava para casa, preparava almoço para mim e para minhas irmãs, arrumava a cozinha, voltava para o cursinho para assistir às aulas, saía do cursinho e ia para a Escola de Música ou ficava no cursinho para estudar até fechar. Eu cantava no Coro Lírico da Escola de Música de Brasília. Estudar canto lírico e descobrir a música erudita estava sendo um alento em meio ao estresse e à humilhação do ano dos Vestibulares. Eu e o pai de Clara já éramos namoradinhos. Nós nos divertíamos muito nos finais de semana, ouvíamos muita música de todos os gêneros, íamos a muitos shows e eventos musicais. A família dele segue sendo família tradicional brasileira. Enquanto se sentirem superiores a quem está presente, tudo estará bem. Passei no terceiro Vestibular. Engravidei no segundo semestre. Larguei a Escola de Música assim que Clara Lua nasceu. UnB via Exercícios Domiciliares por um semestre... Fui morar com a família tradicional brasileira. Casei-me com a avó de Clara. O pai continuou sua vida como se nada houvera. Eu havia sido humilhada pela minha mãe, mas o que passei ali foi o inferno. Não sei como sobrevivi. Vão ler isso aqui e dizer que eu tinha conforto material. Foi às custas da minha alma. Mas eu a resgatei. Uns anos depois, entrei na Escola de Música novamente. Estudei mais canto lírico. Consegui vaga com o professor de Whiplash do canto erudito. Ele era o cão. Mas eu era mais. Eu estudava muito. Acho que eu já tinha me formado em Letras e estava no Mestrado. Fiz até concurso nacional de voz e ganhei. Enquanto isso, o pai de Clara não queria se mudar da casa da família tradicional brasileira de 700m2, terreno de 2500m2, para um cantinho nosso, como a nossa cara. Ainda seria possível? Eu queria. Ele se formou em arquitetura depois de viver o curso e a vida universitária em toda a sua potencialidade com todos os happy hours, todas as festas, todos os bares, todas as bandas, todos os shows, tudo. Eu fui mãe, trabalhei, estudei, trabalhei, fui mãe. Ainda na graduação, tentei estar numa banda por alguns meses, ganhamos um lance num festival (FINCA), estava fazendo sucesso, um dos caras da banda quis que eu saísse após eu criticar uma de suas composições, os outros apoiaram. A banda acabou quatro meses depois, bem-feito. Babacas. Voltando, cansei de esperar o bonito entender que, ops, eu finalmente entendi que o pai de Clara não queria um núcleo familiar comigo e com Clara. Fui embora do lugar que eu chamava de mansão dos horrores. Um tempo depois me casei com o que viria a ser o pai de Rosa. Paixão. Sonho de ter meu lar. Um homem que assumiu uma família comigo e com minha filha. Consórcio. Carro. Viagens. Amigos. Escola cara. Restaurantes. Eventos. Família disfuncional do homem. Pai de Clara sumindo. Eu entrei no Doutorado. Eu me profissionalizando na Ópera. O homem em crise. Eu ganhando dinheiro. Eu mais bonita, mais magra, mais lisa, mais loira (ô, gente...). O homem querendo controlar tudo. O homem estragando tudo. Eu rebelde. Qual a graça de conseguir realizar vários sonhos ao mesmo tempo e ter um homem perguntando o que vai ter para o almoço? Eu precisava de alguém que providenciasse o almoço, dividir a carga, sabe? Maior correria para conseguir cumprir vários compromissos no mesmo dia e nenhum apoio, só um homem me enchendo o saco e dizendo que quer largar o emprego e ir para a Europa finalmente seguir a carreira de cantor de Ópera dele já que EU havia sido CONVIDADA para ficar um ano na França com aquele lance de Doutorado Sanduíche. Um ano passa num sopro e o homem queria largar o emprego dele de doze anos de idade sendo que quem tinha uma possível carreira de cantora também era eu. O que eu precisava era dele compondo minha rede de apoio com minha filha. Não de lunatismo. Ele poderia tentar realizar os sonhos dele sem cagar os meus, não? Nós tínhamos uma vida tão gostosa, harmoniosa, feliz. A partir de então, ele começou a tomar decisões financeiras sozinho e arruinou tudo. Depois fez planos megalomaníacos. Eu desisti do Doutorado Sanduíche. Engravidei. Parei de cantar. Decidi apenas terminar o doutorado e arrumar um emprego qualquer. Não conseguia escrever artigos para enviar para revistas Qualis “Cu” e publicar. Não conseguia participar de mil congressos como meus colegas que hoje são professores de Universidade. Perdi a pequena época de fartura que a ciência teve. Banquei nossa relação, os planos loucos do homem, a nova filha. Fiz algumas merdas também, lógico. Não vou me eximir da responsabilidade por minhas escolhas. Eu poderia ter batido o pé, largado o homem, deixado a filha com o pai dela (que nem falava com ela há meses) e pensado só em mim e em meus sonhos. Todavia, eu não quis. Eu tinha outros sonhos relacionados à estabilidade financeira, emocional, à segurança, ao meu relacionamento afetivo/amoroso/sexual, à felicidade e alegria das minhas filhas. Abri mão de umas coisas importantes por outras coisas igualmente importantes e queria reconhecimento por isso. Recebi desprezo e tentativa de controle. Não tinha como dar certo. Junta aí a outra filha adoecida, eu perdidinha tentando ajudar uma adolescente bipolar quando esse terreno todinho da neuroatipicidade na adolescência era só mato. Junta também minha mãe que vendeu o apartamento dela, fez um negócio conosco para nos emprestar dinheiro para terminarmos a construção da casa, um dos vários planos megalomaníacos do homem, e depois resolveu mudar unilateralmente os termos da negociação de modo que começou a cobrar de várias formas o dinheiro antes do previsto. A pressão reverberava em violência psicológica de ambos contra mim. Eu rebatia com descontrole emocional, financeiro e desespero. Após a venda do apartamento dela, minha mãe veio morar conosco, o que transformou nossa casa recém-construída em casa da minha mãe com todas as filhas dela, quase todos os irmãos dela (um é pedófilo e pelo menos esse não ia), e a mãe dela. Não gosto nem de lembrar. Nenhum deles me trata com respeito. Obviamente não me trataram com respeito dentro da minha própria casa. Detalhe importante: minha mãe descobriu um câncer de intestino. O tratamento foi rápido, uma cirurgia. Não foi necessária químio ou radioterapia. Mesmo assim. Eu não tenho afinidade com quase ninguém da família da minha mãe. Mas a amo muito e a quero muito bem, portanto, a casa era dela, sim. Eu que aguentasse o mundaréu de parentes. Inclusive, sem o empréstimo dela, a casa teria sido finalizada com bastante dificuldade. Só não foi certo mudar os termos da negociação e achar que estava tudo bem. Fiquei arrasada quando decidi romper com ela por conta de tanto julgamento e palavras cruéis que ela proferia quando se referia à doença de Clara. Os dois anos de distância foram bons. Voltamos a nos comunicar de maneira mais respeitosa e bem mais amorosa. No meio disso tudo tinha uma baby, minha Rosinha, cheia de personalidade e de alegria. Cuido com muito amor. Durante uns meses, meu sobrinho se juntou a nós para que sua mãe, minha irmã mais nova, fizesse o curso de formação da PM. Eu amei cuidar deles dois juntinhos. Um contrapeso ao peso do dodói de Clara Lua. Se eu não estivesse sob tanta pressão do homem por conta de dinheiro, jamais aceitaria a contribuição financeira de minha irmã. O homem dizia, acho que ainda diz, que só não canta quem não quer. Pelo jeito ele não sabe que em vez de uma rede de apoio eu tive um bando de opressão... Já passou também. Pelo menos uma vez por ano ainda participava de alguma montagem operística amadora. Eu não sofria mais por não poder estudar o tanto que eu gostaria, ou por não fazer aulas de teatro para melhorar a construção do personagem e a performance; ou aulas de dança para melhorar a postura, o tônus muscular e a desenvoltura no palco; ou por não estudar mais um idioma; ou por não estudar piano; ou por não pagar uma ou duas horas de correpetição por dia para estudar com acompanhamento. A parte literária, histórica e musical eu garantia. Eu ia participar daquelas montagens nem sei por quê. Achava-as todas medíocres. Mas eu não sei se eu sabia disso. Só sei que eu não achava graça. Eu queria mais. Eu podia muito mais. Disso eu sabia. Eu também sabia que estava profundamente infeliz. Comecei a dar aulas numa “universidade” privada. Fiz concurso para o IFB, meu sonho. Passei, porém não tão bem a ponto de ser convocada antes dos quatro anos de pesadelo a que acabamos de sobreviver. O prazo de validade termina em agosto deste ano. Sonhei que fui convocada. Seria muito lindo. É um sonho grande e lindo. O fascismo em 2016 já estava se fortalecendo. Minha trajetória em instituições privadas fascistóides a partir de então foi de ruim a desastrosa até 2022, quando teve um concurso para a Secretaria de Educação. Passei. Estou esperando convocação. Deve demorar. Enquanto isso, não estou conseguindo trabalhos, outro emprego, nada. Fico rindo sozinha de uma expressão das golpistas mandaleiras: “bloqueio de abundância”. Tá rolando hahaha. Brincadeira. Essa é uma oportunidade de olhar para mim, de cuidar de mim, de entender coisas que nunca aceitei que poderia ousar tentar entender, de aceitar o amor, de aceitar o cuidado, de poder querer, de querer, de sonhar com algo para mim, de pensar em mim, de planejar para mim, de me amar. Estou cuidando de uma adolescente que, quando a deixei na escola e disse “Boa aula, meu amor”, despediu-se de mim assim: “Bom nada pra você.” Fiquei bem pensativa ontem. Eu a levo e busco na escola, cozinho, organizo e limpo a casa, penduro e guardo as roupas, faço as compras, levo à aula de teatro, à terapia, levo para os passeios, recebo as amigas dela, invento atividades etc. Nada? Tenho uma vida também. Meus amigos, meus livros, meus discos, meus amores. Nada? A vida é só trabalho, então? Mujica, ensina a menina. Não fiquem bravos com Rosinha. Ela é massa: carinhosa, amorosa, divertida, inteligente e perspicaz. Por isso mesmo eu nem preciso me perguntar o que eu fiz de errado, gente! Caetano falou bem ali que um dos mais belos rocks do mundo é “Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer ê” Não controlamos nada, né Rita? Deixe que façam as próprias descobertas e vivam como acharem melhor. Eu as amo mais que a mim. Isso é certo. Depois de tanta coisa louca que passei, acho que meu pós-parto começa agora. Me libertando de uma vida vulgar que eu levava estando quase junto à velha opinião (de)formada sobre tudo.

09 de Maio de 2023

quarta-feira, 5 de abril de 2023

 

Enquanto isso, eles vivem

Gandhia Brandão

 

A criança foi deixada na escola às 7h30. Antes disso, acordei, quis morrer umas três vezes, olhei o telefone, naveguei, enrolei, levantei resmungando, fiz xixi, escovei os dentes, lavei o rosto, troquei de roupa, arrumei o cabelo, acordei a menina, abracei, beijei, chameguei, escutei reclamação, desci, fiz café, preparei o café da manhã, são coisas diferentes, comemos juntas, ajudei a arrumar o cabelo da criança pré-adolescente, lavei a garrafa térmica, enchi a garrafa térmica de água, perguntei algumas vezes se os materiais do dia estavam todos na mochila, pensei em quais tarefas domésticas faria depois.

Se eu começar a revisar texto agora, vai render bastante. Mas tem roupa para estender, melhor lavar a louça do café e estender essa roupa logo. Se bem que tem que trocar a roupa de cama e aspirar os quartos. O lixo. Tirar os lixos dos banheiros, eca... Ah, vou olhar o telefone. Nossa, já são 8h40! Vou revisar. Credo que texto chato. Nem... Será que o casaco da Rosa está limpo? Gente... Que ridículo esse cara me mandando mensagem. Dá não. Amiga, olha isso: lembra aquele cara que... Ah, vou mandar mensagem, não. Vish... Tenho que caminhar, pelo menos. Engordei de novo... Será que vou ter de dar aula em escola fascista de novo? Esse resultado do concurso que não sai nunca... Acho que vou estudar um pouco de música. É, 11h04 já. Vou ter que pedir comida. Pelo menos cantei bastante. À tarde eu estendo a roupa. Eita, hoje Rosa tem consulta com o otorrino. Vou estender agora.

Corri e consegui estender a roupa, lavar a louça e tomar uma duchinha. Almoçamos num self-service, fomos para a clínica. Demorou. Consulta, exames. Lanchinho, mercado. Chegamos em casa já mais para o fim da tarde. Descanso de leve. Rosa foi brincar um pouco com a amiga. Voltou e fui ajudar com o dever de casa.

É uma vida de privilégios? É uma prisão? É uma armadilha? É uma opção? O que é? Estou desempregada. Tive que lembrar a menina de ir tomar banho. Aí, aquela reclamada básica e a pergunta sobre o porquê de se tomar banho todos os dias. Todos os dias. Preparei o lanche da noite. Comemos, conversamos. Ela foi ver os vídeos dela. Eu fui ver a série do momento e me preocupar à toa tentando anestesiar o cérebro para sobreviver.

Hoje é segunda. Sábado eu tenho ensaio de um grupo, aula de outro e apresentação de outro. O pai da menina estará viajando. Vai ver o pai dele. Umhum. O pai dele mora em Pernambuco. Ele avisou dessa vez. Tem vez que nem ficamos sabendo. Fico pensando se estaria nessa situação de desemprego e desespero se as tarefas fossem divididas. Ele não gosta que as coisas tenham que ser feitas “do meu jeito”. Eu não sei se o jeito é “o meu jeito”. Dormir antes das 22h porque estuda de manhã é “o meu jeito”? Não almoçar fast food dois dias seguidos é “o meu jeito”? Não deixar de tomar banho ou escovar os dentes, respeitar um momento de cansaço da menina, verificar se tem dever de casa e proporcionar o momento tranquilo de fazer, não jogar até de madrugada durante a semana, dar o remédio no horário do remédio, essas coisas são “o meu jeito”?

Eu já quis coisas de um jeito. Hoje nem sei muito bem qual é esse jeito que deveria ser meu. Estive buscando, tinha encontrado, deixou de servir, recomecei a busca. Bora pra próxima. Enquanto isso, os homens parecem estar bem soltinhos por aí, fazendo o que querem, quando bem entendem, do jeitinho dominador de sempre. Dizem que estão perdidos. Sei não... Dominação pode ser uma questão também de forma.

Sobre sonhar com uma cidade Gandhia Brandão Um bloco de carnaval cujo tema é a luta antimanicomial colocou a seguinte frase: "se a ...