Natal
2023
Gandhia Brandão
Neste ano, não fingi.
Não sei se está sendo bom para
minhas filhas, principalmente para Rosa. Estou com medo de estar sendo firme em
meu propósito de não a proteger ofertando-lhe a imagem de um pai que nunca teve
ou só teve graças a meu esforço descomunal. Não sei se está sendo melhor pra
ela ou pra mim. Não sei se esse desespero que sinto se deve ao pavor de
assistir minha filha sentindo a dor do abandono que eu tanto tentei evitar. Ou
se o rebuliço de estar deixando o papel de vítima de abuso é tão confuso e
perturbador que ainda não sei existir sem ser alvo.
Eu sempre detestei a frase:
não me coloco em papel de vítima. Como se ser vítima fosse admitir fraqueza e
admitir fraqueza fosse algo errado. Eu sou vítima. Uma parte de mim sempre
soube e ficou em silêncio acreditando que estava fazendo um bem para a filha ao
esconder isso dela.
Quando ela começou a falar
sobre algumas atitudes parecidas com as que o pai realizou contra mim, uma
sirene foi acionada dentro de mim e um processo muito doloroso começou a
terminar de acontecer: a libertação.
Eu saí do casamento há seis
anos. No entanto, segui submissa como divorciada de maneira sutilmente
sofisticada. Como eu saí destruída - um verdadeiro nada, um farrapo, passei
anos perseguindo subempregos com remuneração patética me sentindo apavorada a cada
final de ano sem saber se teria emprego no ano seguinte. Era o que me restava.
Uma doutora fracassada tentando se reerguer.
Eu tinha medo de receber, a
qualquer momento, como recebi do pai da filha mais velha, uma intimação para
audiência sei lá das quantas que trataria de redução de pensão alimentícia, ou
seja, além de tentar evitar qualquer constrangimento para minha filha no
sentido de decepção ou ansiedade de espera, eu fazia questão de manter um
padrão de vida decente e achava que não deveria questionar nada nunca para
evitar que ele ficasse zangado e usasse a arma financeira contra mim, algo que
ele nunca havia feito, até que eu comecei algum embate, como previ. Se ofereceu
para fazer declaração de IRPF, se ofereceu para fazer empréstimo com juros mais
baixos e, quando eu finalmente reivindiquei alguma coisa, que, honestamente,
foi irrisória diante do montante suportado por mim, fez questão de lançar aos
quatro cantos.
O abuso... Ele estava ali o
tempo todo. O abusador não vê ninguém além de si. Oferece algo que supostamente
é ok e depois acusa a gente de tê-lo prejudicado.
Fez dívidas durante nosso
casamento comprando terreno sem me consultar, comprando carro sem me consultar,
abrindo empresa e me avisando numa situação de encurralamento. Administrava o
dinheiro da família fazendo planilhas que não contemplavam as necessidades de
todos, pensando somente nas dele e me acusa de atrapalhar a vida financeira
dele até hoje porque eu gastava com mercado e roupas sendo que essa conversa já
aconteceu 300 vezes e até desculpas por algo que nem é minha culpa eu já pedi
(o detalhe de que eu nunca comprava nada caro sem pedir autorização jamais é
lembrado por ele, lógico).
Volta e meia eu me lembro de
um absurdo do tipo: foi levar a filha para uma atração de patins no gelo, ela
estava tentando patinar sozinha de blusa de alcinha, congelando e ele se
divertindo horrores do outro lado do ringue, nem “tchum” pra ela. Cheguei para
buscar a menina no horário combinado, não me respondia, não me atendia. Tive
que entrar na atração para resgatar a criança.
Eu nunca marcava nada nem
antes, nem depois de algo combinado com ele, pois era garantia de que não iria
conseguir realizar. Ao passo que minha filha foi crescendo, comecei a ter que
ficar de plantão durante o tempo em que ela estava com ele, pois a qualquer
momento ela poderia me convocar para buscá-la. Assim, foram se distanciando até
chegarmos ao ponto em que ela não quer mais vê-lo. Tentei alertar inúmeras
vezes, sempre recebida com desdém, agressividade e intolerância. Até que as
retaliações começaram. Hoje, não fala comigo sem a presença advogada.
Estou aqui reflexiva, me
sentindo triste, culpada e angustiada porque minha filha vai acordar e viver um
Natal de merda, que é também o aniversário dele.
Eu já detesto essa data que
nos obriga a celebrar algo que não tem nada a ver com nada e que não nos move
internamente de maneira alguma. Sempre foi uma "festa" forçada,
todavia, parece que o fingimento fazia mais sentido que ser de verdade. A frase
"a verdade dói" está fazendo muito sentido neste segundo. Dói. Eu vou
ter que lidar com essa dor e tentar fazer esse dia ser, de alguma maneira,
alegre para minha filha.
Espero que a filha mais velha
consiga vir e que possamos dar risadas de bobagens, dos gatinhos, de qualquer
coisa. Espero que a comida fique gostosa e que possamos ouvir música, cantar,
tocar e trocar afetos.
Sobre aquelas pessoas que me
magoaram tanto e que eu já chamei de mãe, irmãs, sobrinhos... Eu ainda não
processei totalmente. Acho que coloco no mesmo patamar. Ainda não sei se fingir
era melhor ou pior. Só sei que não estou com dor de barriga nem crise de
ansiedade apavorada imaginando que agressões vou receber no evento em que não
quero estar com pessoas que me detestam e das quais nunca vou conseguir
aprovação.
Não quero mais ser parte
daquilo. Isso é bom. Pelo menos pra mim.
Não sei se é bom para minhas
filhas. Ainda fico confusa com isso.
Ainda estou um pouco perdida
por saber que não tenho com quem contar. Não sinto o peso de ter que agradar
quem nunca vai ser agradado, mas sinto um outro peso, que é o de carregar a
responsabilidade sobre minhas filhas sozinha.
Contudo, eu sempre fiz isso.
Só achava que não.
24 de dezembro de 2023