quinta-feira, 28 de março de 2024

 

Natal 2023

Gandhia Brandão

Neste ano, não fingi.

Não sei se está sendo bom para minhas filhas, principalmente para Rosa. Estou com medo de estar sendo firme em meu propósito de não a proteger ofertando-lhe a imagem de um pai que nunca teve ou só teve graças a meu esforço descomunal. Não sei se está sendo melhor pra ela ou pra mim. Não sei se esse desespero que sinto se deve ao pavor de assistir minha filha sentindo a dor do abandono que eu tanto tentei evitar. Ou se o rebuliço de estar deixando o papel de vítima de abuso é tão confuso e perturbador que ainda não sei existir sem ser alvo.

Eu sempre detestei a frase: não me coloco em papel de vítima. Como se ser vítima fosse admitir fraqueza e admitir fraqueza fosse algo errado. Eu sou vítima. Uma parte de mim sempre soube e ficou em silêncio acreditando que estava fazendo um bem para a filha ao esconder isso dela.

Quando ela começou a falar sobre algumas atitudes parecidas com as que o pai realizou contra mim, uma sirene foi acionada dentro de mim e um processo muito doloroso começou a terminar de acontecer: a libertação.

Eu saí do casamento há seis anos. No entanto, segui submissa como divorciada de maneira sutilmente sofisticada. Como eu saí destruída - um verdadeiro nada, um farrapo, passei anos perseguindo subempregos com remuneração patética me sentindo apavorada a cada final de ano sem saber se teria emprego no ano seguinte. Era o que me restava. Uma doutora fracassada tentando se reerguer.

Eu tinha medo de receber, a qualquer momento, como recebi do pai da filha mais velha, uma intimação para audiência sei lá das quantas que trataria de redução de pensão alimentícia, ou seja, além de tentar evitar qualquer constrangimento para minha filha no sentido de decepção ou ansiedade de espera, eu fazia questão de manter um padrão de vida decente e achava que não deveria questionar nada nunca para evitar que ele ficasse zangado e usasse a arma financeira contra mim, algo que ele nunca havia feito, até que eu comecei algum embate, como previ. Se ofereceu para fazer declaração de IRPF, se ofereceu para fazer empréstimo com juros mais baixos e, quando eu finalmente reivindiquei alguma coisa, que, honestamente, foi irrisória diante do montante suportado por mim, fez questão de lançar aos quatro cantos.

O abuso... Ele estava ali o tempo todo. O abusador não vê ninguém além de si. Oferece algo que supostamente é ok e depois acusa a gente de tê-lo prejudicado.

Fez dívidas durante nosso casamento comprando terreno sem me consultar, comprando carro sem me consultar, abrindo empresa e me avisando numa situação de encurralamento. Administrava o dinheiro da família fazendo planilhas que não contemplavam as necessidades de todos, pensando somente nas dele e me acusa de atrapalhar a vida financeira dele até hoje porque eu gastava com mercado e roupas sendo que essa conversa já aconteceu 300 vezes e até desculpas por algo que nem é minha culpa eu já pedi (o detalhe de que eu nunca comprava nada caro sem pedir autorização jamais é lembrado por ele, lógico).

Volta e meia eu me lembro de um absurdo do tipo: foi levar a filha para uma atração de patins no gelo, ela estava tentando patinar sozinha de blusa de alcinha, congelando e ele se divertindo horrores do outro lado do ringue, nem “tchum” pra ela. Cheguei para buscar a menina no horário combinado, não me respondia, não me atendia. Tive que entrar na atração para resgatar a criança.

Eu nunca marcava nada nem antes, nem depois de algo combinado com ele, pois era garantia de que não iria conseguir realizar. Ao passo que minha filha foi crescendo, comecei a ter que ficar de plantão durante o tempo em que ela estava com ele, pois a qualquer momento ela poderia me convocar para buscá-la. Assim, foram se distanciando até chegarmos ao ponto em que ela não quer mais vê-lo. Tentei alertar inúmeras vezes, sempre recebida com desdém, agressividade e intolerância. Até que as retaliações começaram. Hoje, não fala comigo sem a presença advogada.

Estou aqui reflexiva, me sentindo triste, culpada e angustiada porque minha filha vai acordar e viver um Natal de merda, que é também o aniversário dele.

Eu já detesto essa data que nos obriga a celebrar algo que não tem nada a ver com nada e que não nos move internamente de maneira alguma. Sempre foi uma "festa" forçada, todavia, parece que o fingimento fazia mais sentido que ser de verdade. A frase "a verdade dói" está fazendo muito sentido neste segundo. Dói. Eu vou ter que lidar com essa dor e tentar fazer esse dia ser, de alguma maneira, alegre para minha filha.

Espero que a filha mais velha consiga vir e que possamos dar risadas de bobagens, dos gatinhos, de qualquer coisa. Espero que a comida fique gostosa e que possamos ouvir música, cantar, tocar e trocar afetos.

Sobre aquelas pessoas que me magoaram tanto e que eu já chamei de mãe, irmãs, sobrinhos... Eu ainda não processei totalmente. Acho que coloco no mesmo patamar. Ainda não sei se fingir era melhor ou pior. Só sei que não estou com dor de barriga nem crise de ansiedade apavorada imaginando que agressões vou receber no evento em que não quero estar com pessoas que me detestam e das quais nunca vou conseguir aprovação.

Não quero mais ser parte daquilo. Isso é bom. Pelo menos pra mim.

Não sei se é bom para minhas filhas. Ainda fico confusa com isso.

Ainda estou um pouco perdida por saber que não tenho com quem contar. Não sinto o peso de ter que agradar quem nunca vai ser agradado, mas sinto um outro peso, que é o de carregar a responsabilidade sobre minhas filhas sozinha.

Contudo, eu sempre fiz isso. Só achava que não.

        

24 de dezembro de 2023

 

 

 

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