sábado, 13 de abril de 2024

Sobre sonhar com uma cidade

Gandhia Brandão

Um bloco de carnaval cujo tema é a luta antimanicomial colocou a seguinte frase: "se a cidade fosse nossa?" (vou deixar como uma pergunta). Depois completou, em outro post, genial: "imagine uma cidade planejada para potencializar diferentes corpos e vivências."

Eu imagino todos os dias, Rivotrio. Principalmente ao planejar minha rotina de modo a evitar engarrafamentos longos no trajeto de volta do plano piloto para minha satélite ou ao fazer malabarismos para organizar a alimentação da minha filha no vai e vem plano-satélite porque as terapias dela só existem far far away ou quando vou fazer qualquer coisa à noite e tenho medo de voltar tarde sozinha - citando coisinhas light porque esse é meu recorte de classe pós mini ascensão pós políticas públicas de painho Lula e Dilmãe.

A iniciativa de quem tem tempo, condições e urgência de questionar os espaços, as relações, a (des) organização social e a própria existência humana é, além de linda, importante e necessária. Mas aí vem o paredão invisível da classe social que é construído de linguagem, de alcance, de opressões que não adianta mencionar aqui porque as pessoas, ainda que muito bem intencionadas, não enxergam, não ligam ou, na real, não é papel delas lidar com isso porque o que elas podem fazer, já estão fazendo: construir bloquinhos legais pra gente brincar.

Eu não falo asanortês, demorei pra entender isso, mas já aceitei. Tá tudo bem agora hahaha. Adoro a movimentação que os planopiloters intentam com fanfarras e bloquinhos de carnaval meio "a vida de Tina" e sempre que eu ficar sabendo e conseguir, vou aproveitar, pois é neles que me divirto e me sinto segura, mesmo sem pertencer.

Sendo mãe de duas meninas neuroatípicas, tendo minha depressão/ansiedade eu mesma e tentando sair de um ciclo de violência longo em tratamento no CEAM (obrigada, SUS) e estereotipada por gente que era "amiga" como "carente" ou "probleminha" ou "personalidade forte", tendo sido "diagnosticada" de louca nos rolês por aí por algozes (risos) com intenção de me atribuir mais títulos além do de Doutora em Literatura e de Melhor Voz Feminina Nacional, eu louvo o Rivotrio e sua intenção.

Fico triste com algumas coisas, mas estou aprendendo tardiamente que o todo, às vezes, é mais importante que as partes, só às vezes. Tem coletivo "estranho, com gente esquisita" que vai fazer parte, mas é isso.

Participo desencaixada talvez por eu ser assim, mesmo, e não pelo fato de imaginarem uma cidade na Asa Norte, que não representa A CIDADE, não alcança AS PESSOAS, todavia, as que estarão lá (estaremos), estão tentando, sonhando, criando, brincando no TERRITÓRIO em que é POSSÍVEL no bloco feito pelas pessoas que PODEM.

Orgulho-me de saber que não me adapto ao que não me contempla: se isso é ser louca, orgulho-me de ser.

Vai ser lindo 🌟

PS. Meus pés... Ah, Carnaval... Tô toda lascada, mas você não me destrói, você me reconstrói. Te amo ♥️

 

17 de fevereiro de 2024

 

 

  

sexta-feira, 29 de março de 2024

 

Chorei, ainda choro

Gandhia Brandão

Hoje eu vi o nome e meu estômago embrulhou. De novo. Dessa vez foi de raiva. De novo. Citado por uma cantora reconhecida. Fez a animação de um clipe dela.

Olha... Esse lance de parar de viver a partir do que me fizeram ou a partir das escolhas que eu fiz a partir do que me fizeram tem hora que parece impossível. Ver o cara fazendo sucesso é foda... Desejo mal? Não sei. Preferiria não ter que ter o nome bem-sucedido esfregado na minha cara com o trabalho bonito cuja liberdade de criação nunca foi arranhada pelas atitudes questionáveis. Eles são intocáveis. Quem fica destruída é a gente. Eu não consigo aceitar que é mera questão de escolha.

Quero parar de me perguntar o porquê. Por que o cara ficou meses me atazanando? Ele era namorado da minha prima. Essa aí é outra... nem... Eu morava na casa da família tradicional brasileira. A “favelada aproveitadora”. Tratada que nem lixo e nem percebia. Só sentia um mal-estar constante. A dona da casa também era minha prima, aliás, é - não morreu -, e tia daquela prima ali de cima - uma mistureira - portanto, eu sou prima seiláquegrau do filho da dona, que era meu parceiro. Engravidei no terceiro ano de namoro e ficamos por ali para terminarmos nossos estudos cuidando da criança, no caso, eu cuidando. Obviamente, eu já trabalhava. Ele, não. Família de migrantes que “deu certo”. Engenheiro e médica. Lago Sul. A minha, apesar de ter vindo do mesmo sertão, era a parte pobre. Professora. Mãe solo de três. Taguatinga. Outra história.

O cara fez uma música linda chamada “Migrador”. Eu chorava toda vez que um dos amigos, primo dele, cantava. Esse amigo e minha irmã, com quem não tenho mais contato, fizeram uma filha. Essa história é bem interessante, mas também é para outro momento. Ambas. A da minha sobrinha e a do corte de relações.

A prima namorada do cara do clipe é atriz. Na época, éramos todos universitários. Tem uma diferença enorme entre quem é universitário planopiloter e quem ralou que nem condenada para passar no terceiro vestibular antes das políticas afirmativas estudando, trabalhando, sendo humilhada por uma mãe monstro, sempre peixe fora d’água. Marginal porque marginalizada. Excluída na sutileza da risadinha, do comentário depreciativo, da substituição da canção que eu havia acabado de colocar, do deboche da roupa, da crítica velada ou nem tão velada assim, do "não gostei da ideia" mas vou falar como se fosse minha.

Interessante que ninguém dava risadinha da pessoa que atuou em novelinha da Igreja Universal por um cachê de 50 reais. Se bem que é mais assustador que engraçado, mesmo. Eu falei que a detestava para um cara com quem estava querendo fazer amizade e me lasquei. São amigos e ele é fã dela. Fiz a pior abordagem possível. Hoje ela pertence a um grupo de teatro que realiza trabalhos muito bons. Eu não acho que a detesto. Eu acho que detesto toda essa história.

Eu fiz mestrado e doutorado. Nenhum deles fez. Eu também sofri violência doméstica de todas as modalidades. Isso aí eu não vou afirmar nem desafirmar por ninguém.

Ela, a prima, não sei dizer com muita certeza se era desrespeitosa comigo, exclusivamente, ou se era sem noção em geral. Eu era muito maltratada na casa como um todo – ainda bem que a classe média alta não lê, senão iriam me acusar de calúnia, ou injúria: “Como assim? Era uma filha para nós. Que absurdo! Tinha todo o conforto material. Uma ingrata.” Sim, eu vivia numa casa à qual não pertencia, em que nada me pertencia, cujos objetos e espaços não tinham absolutamente nada a ver comigo e cujos habitantes não falavam comigo sem me diminuir. Linda a casa. Só que eu queria a minha casa, com minhas coisinhas, meus cheiros, meus hábitos, meu parceiro e minha filha. Esperei tanto por isso. Tanto, tanto. Cansei e fui embora.

Enquanto vivi ali esperando, amando aquele homem poeta que dizia muito sobre amor e quase nada fazia, aprendi muito sobre muito.

O cara animador de clipe me dedicou uma canção de Caetano, meu Caetano, chamada “Muito”, enquanto me olhava, me acariciava, passeava com seus lábios por minha pele. Eu estava na cama dele. A música tocando. Os olhos. A cortina. O coração.

Inclusive, aprendi sobre o que eu não gostava, o que eu não queria, o que não me satisfazia, o que eu não aceitava. Eu achava tudo muito desencaixado por ali. Mas era eu. Eu era desencaixada. O superficial era a regra. Eu gosto do profundo, então eu estava errada. Não eles. Eu era “o outro”. A outra. 

O cara tinha uma banda. Eu amava cantar. Mas eu trabalhava tanto. Estudava tanto. Cuidava da minha filha sozinha. Administrava tantas coisas sozinha. Não me lembro muito bem como fui me aproximando daquela galera, mas sei que tem a ver com o fato de que eu tinha carro. Tentando bancar uma vida que não era minha. A prima precisava de caronas para o Lago Norte, para festas e eventos. Minha irmã precisava de caronas para tudo. Eu estava bem isolada socialmente com filha pequena, trabalho e estudo. Eu acabei me entrosando um pouco com algumas pessoas e voltei a ter uma certa vida social.

A casa do cara era cheia de música. Eu fiquei encantada. Estava longe de mim, da minha voz, dos meus sonhos. Estava vivendo num lugar que não tinha a ver comigo, em que não era nem considerada gente, em que a patroa dizia para a empregada não fazer certas coisas para mim porque eu morava ali de favor.

O cara músico, namorado da minha prima atriz, tão livres para a arte, para criar, para transar, para viver, para viajar. Que legal! Várias outras pessoas artistas convivendo. Que massa! Começaram a prestar atenção em mim. Estava pertencendo a algo que era bonito. Que era verdadeiro.

Mentira...

O cara começou a flertar. Eu demorei um pouco para perceber.

Antes, ou depois, não me lembro, eu entrei na banda.

Antes, ou depois, não me lembro, um outro cara da banda flertou, desflertou, muito confuso, mas com pose de “sabetudo”, querendo ensinar todo mundo sobre “relacionamento aberto”. Um pioneiro do “amor livre só pra mim” no início dos anos dois mil.

A minha participação nessa banda foi um cometa. Rápida, intensa, brilhante e se apagou. Enquanto lá estive, aparecemos em jornais, fomos para a final de um festival, fizemos shows bem legais, inclusive com Rita Benneditto, me fizeram exigências que não haviam sido previamente combinadas, não gostaram da minha opinião quando me perguntaram e me expulsaram da banda. Quatro meses e um show sem mim depois, a banda se desfez. BEM FEITO!

O cara NUNCA falou uma única palavra sobre isso. Aliás, depois que conseguiu o que queria, nunca mais nos falamos. 

Muitos anos depois, nos vimos em um show do Marcelo Jeneci. Fraco. Meu coração saiu pelo cu. Ele arregalou os olhos que eu vi. Um tempo depois dos olhares cruzados, não sei dizer se foi meia hora ou dez segundos, ele me deu um abraço apertado. Eu não tive reação. Não consegui falar ou fazer nada. Não sei se ele falou alguma coisa. Paralisei. 

Que ódio.

Eu não ia querer estragar minha night, mas não fazer nada... Não gosto. Uma luta danada para conseguir reagir às violências e não fiz nada.

Esse cara me tocava escondido, falava coisas no meu ouvido, lambia meu pescoço, me olhava de maneiras que eu não consigo descrever, falava coisas de longe para que eu lesse seus lábios e fez uma música pra mim, né? Lógico. Eu fiz um poema de sofrimento pra ele, mas rasguei e joguei fora. Não me lembro se entreguei alguma versão. Até parece que se importaria.   

Estávamos numa festa numa casa no guará e ele me encurralou várias vezes em cantinhos. Me empurrava para um dos quartos. Me empurrava para detrás das portas. Me beijava. Me lambia. Pegava nos meus peitos. Eu sentia uma confusão de tesão, paixão, desespero e culpa. Minha prima também estava na festa. Ela tinha falado que estava feliz porque todos os homens estavam nos observando, visto que, segundo ela, éramos as mais bonitas da festa, mesmo eu não sendo “tão assim”.

Ao longo dos meses de flerte, assédio, sei lá que nome dou àquilo, afinal, éramos “muito jovens”, eu já tinha me apaixonado perdidamente. Peguei nojo da Adriana Calcanhoto. Ainda bem que era ela. Nunca gostei muito. Não me perdoaria se tivesse sido Maria Bethânia. A canção “Depois de ter você” foi meu hino. 

Eu contei para meu parceiro que estava apaixonada por outra pessoa. Apontei para o fato de que ele era muito negligente em muitos aspectos e que a abertura para aquele acontecimento emocional não era uma responsabilidade apenas minha. Afirmei que eu não gostaria de terminar nosso relacionamento e que precisávamos sair daquela casa, fundar nosso território. Implorei para irmos embora dali construir uma vida nossa. Ele ficou um mês inteiro sem falar comigo. Não terminamos, mas nada mudou.

Eu menti para minha prima. Ela perguntou se éramos nós dois transando no banheiro e eu disse que não. Depois daquilo eu não tive mais coragem de conviver numa boa. Fui me afastando. Tive minha primeira grande crise de depressão. Quatro meses para começar a me recuperar. Não foi apenas aquilo, mas foi também aquilo.  

O clipe do cara ilustra uma bela canção. Meu corpo sentiu calafrio inúmeras vezes perto desse cara. Tentativa de preencher um vazio no peito que nunca seria preenchido por nada nem ninguém além de mim mesma, muito menos pelas migalhas que eu recebia de um cara que tinha a cara de pau de flertar comigo ostensivamente na frente da namorada ou pelos farelos que eu tinha que catar na mesa da casa onde eu morava de favor. 

“Dos olhos o mar entornou” na beira de um rio em que fomos nadar pelados por ideia da prima. Eu chorei só. Minha barriga destruída pela gravidez precoce. Estrias do peito até a púbis com muita flacidez. Esperei chorando todo mundo entrar, sair, deitar e se secar ao sol. "O sol aê", que nem o refrão de uma das músicas da banda. Fui para um lugar distante e entrei no rio chorando e pensando: “Ninguém nunca mais vai me querer, eu fiquei horrível, muxibenta como meu primeiro namorado profetizou, e quadrada como o Titi Bordelia falou quando me viu grávida perto do Alameda Shopping.” Minha prima uma vez falou na frente de todo mundo que meu peito não era feio, só era cheio de estrias, mas até que tinha um formato ok.  

“Nosso amor” nunca existiu, mas eu chorei só inúmeras vezes. Inúmeras. A Iemanjá afogando e depois correndo e depois sentada a contemplar. Aqueles cabelos enormes são meus. O cara nem sabe. Eu os mantive daquele jeito por mais de dez anos. Só cortei no dia da cirurgia da minha filha que, com 4 meses teve que tirar um “caroço” do pulmão. Eu era só uma menina.

Ele finalmente me empurrou para o banheiro, trancou a porta, eu mole, apaixonada e apavorada. “Para. Ela vai ver. Assim eu não quero. Não é assim que eu quero fazer isso. Não tá gostoso pra mim. Desse jeito, não.”

Me virou de costas num canto. Eu usava um body. A barriga. Ele perguntou “O que é isso?” Provavelmente eu estava dificultando alguma coisa. Eu me desculpei. Eu me desculpei e me justifiquei. Ceis têm noção? Desabotoei o body envergonhada. Podemos dizer que foram 7 segundos consensuais. Eu acho.

Ele disse para eu esperar um pouco para sair do banheiro.

Não me lembro de mais nada. Só de chorar. Só.

 

29 de março de 2024

 

 

quinta-feira, 28 de março de 2024

 

Natal 2023

Gandhia Brandão

Neste ano, não fingi.

Não sei se está sendo bom para minhas filhas, principalmente para Rosa. Estou com medo de estar sendo firme em meu propósito de não a proteger ofertando-lhe a imagem de um pai que nunca teve ou só teve graças a meu esforço descomunal. Não sei se está sendo melhor pra ela ou pra mim. Não sei se esse desespero que sinto se deve ao pavor de assistir minha filha sentindo a dor do abandono que eu tanto tentei evitar. Ou se o rebuliço de estar deixando o papel de vítima de abuso é tão confuso e perturbador que ainda não sei existir sem ser alvo.

Eu sempre detestei a frase: não me coloco em papel de vítima. Como se ser vítima fosse admitir fraqueza e admitir fraqueza fosse algo errado. Eu sou vítima. Uma parte de mim sempre soube e ficou em silêncio acreditando que estava fazendo um bem para a filha ao esconder isso dela.

Quando ela começou a falar sobre algumas atitudes parecidas com as que o pai realizou contra mim, uma sirene foi acionada dentro de mim e um processo muito doloroso começou a terminar de acontecer: a libertação.

Eu saí do casamento há seis anos. No entanto, segui submissa como divorciada de maneira sutilmente sofisticada. Como eu saí destruída - um verdadeiro nada, um farrapo, passei anos perseguindo subempregos com remuneração patética me sentindo apavorada a cada final de ano sem saber se teria emprego no ano seguinte. Era o que me restava. Uma doutora fracassada tentando se reerguer.

Eu tinha medo de receber, a qualquer momento, como recebi do pai da filha mais velha, uma intimação para audiência sei lá das quantas que trataria de redução de pensão alimentícia, ou seja, além de tentar evitar qualquer constrangimento para minha filha no sentido de decepção ou ansiedade de espera, eu fazia questão de manter um padrão de vida decente e achava que não deveria questionar nada nunca para evitar que ele ficasse zangado e usasse a arma financeira contra mim, algo que ele nunca havia feito, até que eu comecei algum embate, como previ. Se ofereceu para fazer declaração de IRPF, se ofereceu para fazer empréstimo com juros mais baixos e, quando eu finalmente reivindiquei alguma coisa, que, honestamente, foi irrisória diante do montante suportado por mim, fez questão de lançar aos quatro cantos.

O abuso... Ele estava ali o tempo todo. O abusador não vê ninguém além de si. Oferece algo que supostamente é ok e depois acusa a gente de tê-lo prejudicado.

Fez dívidas durante nosso casamento comprando terreno sem me consultar, comprando carro sem me consultar, abrindo empresa e me avisando numa situação de encurralamento. Administrava o dinheiro da família fazendo planilhas que não contemplavam as necessidades de todos, pensando somente nas dele e me acusa de atrapalhar a vida financeira dele até hoje porque eu gastava com mercado e roupas sendo que essa conversa já aconteceu 300 vezes e até desculpas por algo que nem é minha culpa eu já pedi (o detalhe de que eu nunca comprava nada caro sem pedir autorização jamais é lembrado por ele, lógico).

Volta e meia eu me lembro de um absurdo do tipo: foi levar a filha para uma atração de patins no gelo, ela estava tentando patinar sozinha de blusa de alcinha, congelando e ele se divertindo horrores do outro lado do ringue, nem “tchum” pra ela. Cheguei para buscar a menina no horário combinado, não me respondia, não me atendia. Tive que entrar na atração para resgatar a criança.

Eu nunca marcava nada nem antes, nem depois de algo combinado com ele, pois era garantia de que não iria conseguir realizar. Ao passo que minha filha foi crescendo, comecei a ter que ficar de plantão durante o tempo em que ela estava com ele, pois a qualquer momento ela poderia me convocar para buscá-la. Assim, foram se distanciando até chegarmos ao ponto em que ela não quer mais vê-lo. Tentei alertar inúmeras vezes, sempre recebida com desdém, agressividade e intolerância. Até que as retaliações começaram. Hoje, não fala comigo sem a presença advogada.

Estou aqui reflexiva, me sentindo triste, culpada e angustiada porque minha filha vai acordar e viver um Natal de merda, que é também o aniversário dele.

Eu já detesto essa data que nos obriga a celebrar algo que não tem nada a ver com nada e que não nos move internamente de maneira alguma. Sempre foi uma "festa" forçada, todavia, parece que o fingimento fazia mais sentido que ser de verdade. A frase "a verdade dói" está fazendo muito sentido neste segundo. Dói. Eu vou ter que lidar com essa dor e tentar fazer esse dia ser, de alguma maneira, alegre para minha filha.

Espero que a filha mais velha consiga vir e que possamos dar risadas de bobagens, dos gatinhos, de qualquer coisa. Espero que a comida fique gostosa e que possamos ouvir música, cantar, tocar e trocar afetos.

Sobre aquelas pessoas que me magoaram tanto e que eu já chamei de mãe, irmãs, sobrinhos... Eu ainda não processei totalmente. Acho que coloco no mesmo patamar. Ainda não sei se fingir era melhor ou pior. Só sei que não estou com dor de barriga nem crise de ansiedade apavorada imaginando que agressões vou receber no evento em que não quero estar com pessoas que me detestam e das quais nunca vou conseguir aprovação.

Não quero mais ser parte daquilo. Isso é bom. Pelo menos pra mim.

Não sei se é bom para minhas filhas. Ainda fico confusa com isso.

Ainda estou um pouco perdida por saber que não tenho com quem contar. Não sinto o peso de ter que agradar quem nunca vai ser agradado, mas sinto um outro peso, que é o de carregar a responsabilidade sobre minhas filhas sozinha.

Contudo, eu sempre fiz isso. Só achava que não.

        

24 de dezembro de 2023

 

 

 

 

2023 não foi terrível, só doeu

Gandhia Brandão

Eu passei a virada de 2022 para 2023 sem minhas filhas, na prainha, com muita alegria e esperança de um ano bom, de um ano meu. Foi meu. Ainda não posso chamá-lo de bom, mas acho que o chamarei no futuro.

Rosa não quis ver os fogos, não quis fazer nada.

Clara estava, eu não me lembro onde Clara estava. Eu havia decidido e estava tentando muito não deixar de fazer coisas que são importantes para mim. A virada de ano é importante para mim. Um momento de reza, de projeção e de passagem. Eu preciso e gosto desse símbolo.

Ela ficou em casa. Eu fui. Fiquei pouco tempo e voltei pra casa assim que terminaram os fogos.

Hoje, às vésperas da próxima virada, tento me livrar da invenção de uma culpa: se não tivesse deixado a menina, o ano não teria sido tão duro com ela. Quanta arrogância...

No dia primeiro, posse de Lula, participei quase do jeito que eu queria. Fui cedo com Rosa, abrimos o evento com um cortejo emocionante. Ela estava feliz. Foi lindo. Não conseguiu ficar muito tempo. Não consegui deixá-la com a irmã e voltar. Assisti ao restante de casa, quase satisfeita, ainda mais decidida a não deixar de fazer coisas que são importantes para mim.

Tinha planos de continuar firme nas atividades físicas, na terapia, na alimentação saudável e na profissão de artista. Estava aguardando a convocação para o cargo de professora da SEEDF.

A vida olhou meu planner e rabiscou tudo.

Saí do grupo de cultura popular que integrei por 5 anos com um ciclo bem encerrado dentro de mim, consciente de que ali não era mais um espaço em que eu podia brincar feliz, portanto, não fazia mais sentido.

Tentei outros dois grupos. Um não deu certo, não combinávamos. O outro poderia ser, mas precisei de um intervalo e quando pude voltar, o grupo estava em crise. Não foi.

Enfrentei uma crise grave de depressão. Superei.

Tive um namorado que era casado e cuja esposa estava grávida - obviamente eu só descobri depois que terminei.

Recomecei a estudar música. Que delícia!

Fui convocada para o cargo dos meus sonhos, ainda melhor que o que eu estava esperando. Que incrível!

Meio do ano. Parecia que eu estava finalmente conseguindo não deixar de realizar coisas importantes para mim. Uma sensação de que algo iria dar errado. Deu.

Será que foi porque eu fiz uma promessa e não estou dando conta de cumprir? Eu vou cumprir por etapas. Além disso, eu fiz a promessa pra mim mesma. Eu tenho esse poder tão grande de estragar minha vida desse jeito? Acho que não, heim...

Rosa entrou em depressão. Começou a sofrer para ir para a escola. Desenvolveu ansiedade, teve episódios de pânico. Eu estava atenta porque ela havia sofrido dois ataques de bullying, um no condomínio, no final de 2022, que a isolou em casa; outro na escola, no final do primeiro semestre de 2023, que a isolou na sala de aula. Ela estava em terapia e eu sempre dando apoio. Tinha esperança de que conseguiria vencer essas dificuldades sem maiores problemas. Todavia, foi muito para ela. A escola vinha sendo negligente com algumas pequenas coisas desde o início do ano, mas estávamos conseguindo manejar. A partir da crise de depressão, um desastre, muito desrespeito. Rosa criou aversão ao ambiente escolar.

Parei tudo.

Dediquei todo o meu tempo, toda a minha energia à Rosa.

Ela e Clara são o que há de mais importante para mim.

Não tem música, atividade física, festa, nada mais importante que elas.

Minha filha precisou de ajuda. Estava perdendo a conexão com a vida. Estava em sofrimento.

Ela, bravamente, superou.

A crise de Rosa nos levou a buscar explicações para algumas outras peculiaridades que vinha apresentando. Estou tendo dificuldades enormes para conseguir encontrar profissionais competentes que possam avaliar uma adolescente com tais especificidades e traçar um caminho de auxílio, caso precise.

Muita angústia, dúvida, sobrecarga, ansiedade, decepção, perda de tempo, percepção de misoginia nos atendimentos... Entretanto, muita vontade de acertar e de ajudar minha filha. Persisto. Aprendi muito sobre as possíveis condições que ela possui e creio que consigo lidar com mais tranquilidade com as situações que derivam delas.

Rosa vem lidando com o processo de busca por diagnóstico com muita elegância. Curiosa e questionadora, mas sempre colaborando e ajudando nos momentos em que quebramos a cara (não foram poucos). Clara tem se perguntado sobre a possibilidade de também estar no espectro e uma nova busca está sendo iniciada.

No meio desse caos, tive que frequentar escola junto com ela para que ela conseguisse terminar o ano letivo, o que ela fez com muita garra,  enquanto me adaptava às várias novas atividades e funções do meu novo emprego, o que tanto desejei e cuja estreia curti como consegui. Até fiz amigos muito lindos.

Rosa começou a estudar piano e tocou lindamente num recital. Faz aulas de xadrez. Ganhou dois gatinhos. Está se interessando por livros. Ganhou um quarto de adolescente que ficou um arraso! Para isso, organizei várias coisas aqui de casa e fiz algumas coisinhas que sempre quis fazer.

Encontrei um amigo anjo que a recebeu em sua Sala de Altas Habilidades, o que foi um alento para ela.

Alguns amigos se afastaram, outros se distanciaram, mas continuaram cuidando de longe. Um movimento natural de quem muda de ambiente. A afirmação de quem é e quem não é.

Rompi com aqueles que chamam por aí de família enquanto eu chamo de veneno. Nunca mais vou permitir que ultrapassem meu limite ou o de minhas filhas. Só terá espaço em minha vida quem eu decidir que merece. Contato zero e no processo de desocupar minhas memórias das lembranças dessas pessoas.

Para dar aquele tempero errado, o pai de Rosa resolveu dar birra, me enfrentar, ser bem escroto com a filha e atrapalhar bastante em vez de ajudar. Contudo, me mantive firme em meu propósito de não mais intermediar a relação deles maquiando as falhas do homem para o conforto de Rosa e meu desespero. Não esperava, nem desejava que essa tomada de consciência de Rosa fosse tão cedo, muito menos num momento tão delicado, mas não tive como controlar. Enfrentando advogada e refazimento de acordo judicial.

Rosa voltou a socializar no condomínio e também tem um grupo de amigos de fora com quem conversa, sai e se diverte.

Tentamos uma mudança de endereço para tentar frequentar escola pública que supostamente seria mais sensível a questões de neurodivergência, mas a vida novamente ditou as regras e ficamos por aqui mesmo.

Ainda estamos assustadas com a péssima experiência da escola de 2023, porém torcendo muito para que a nova escola seja acolhedora e que Rosa seja muito feliz por lá.

Parece que havia muita coisa para arrumar, para limpar, para organizar. Faxina até de pessoas. Parece que eu consegui muito disso. Talvez, não tudo. Mas bastante. Inclusive, percebo que venho conseguindo lidar com situações de desconforto com mais tranquilidade, um sonho antigo.

Tenho bons planos para 2024, tenho boas perspectivas. Tenho fé. "A fé não costuma faiá."

Sendo assim, analisando com calma, não foi um ano ruim, só foi um ano de mudanças e mudar é doloroso.         

31 de dezembro de 2023

 

 

 

Memórias Assassinas

Gandhia Brandão

Hoje vivi uma viagem de volta para minha adolescência. Como eu era sonhadora... Ainda sou. Realizei muitos dos meus sonhos daquela época e me senti feliz pela constatação. Alguns deles poderiam não ter sido sonhados, assim, não teriam sido perseguidos, portanto, não teriam sido realizados e não teriam se tornado traumas enormes hahaha, mas já foi. Sonhos incutidos nas cabeças das mulheres e que, se não houvesse atribuição de funções por conta de biologia, eu jamais teria. Agora tenho outros sonhos e sou outra, ainda sendo a mesma menina-velha, agora velha-menina. Uma criança que foi obrigada a ser adulta. Uma senhora que persegue a criança que não foi. Às vezes elas se encontram. É quando sou feliz.

Lembrei que, por ter sido largada em todos os sentidos, fui formada por filmes, músicas, livros e vivências com amigos. Também por uma religião que abandonei. Minha família disfuncional me deformou, mas a arte e outros afetos me reformaram.

Uma banda que fez chacota da indústria cultural apoiada pela própria elevando o pastiche dos principais gêneros comerciais ao infinito deboche marcou o início de um processo bem pessoal de esclarecimento que se encerrou ano passado, 28 anos depois. Parece ridículo, talvez seja mesmo.

Naquela época, eu tinha 15 anos e decidi que tinha que sair da casa em que eu vivia, que seria professora de literatura de gente adulta, que cantaria a Nona Sinfonia de Beethoven, que veria o mar, que iria para a Europa, que viveria grandes amores, que teria muitos livros (eu já lia, mas não eram meus hahaha), que minha casa teria dois andares e que tudo seria cor-de-rosa, que faria uma viagem sozinha pelo mundo (eu não conhecia o termo "mochilão").

Se não fosse a morte precoce de todos os integrantes da banda que hipnotizou um país de, na época, 160 milhões de pessoas fazendo bagunça, eu não teria desconfiado da galera que organizava o templo religioso que eu frequentava à tempo da minha "salvação".

Parece que estavam proibidos de continuar alertando uma nação de que a festa é revolucionária e de que em nosso caso, no caso específico deste país cuja história é escárnio, a alegria fortalece a ponto de dar vontade de modificar as coisas a nosso favor. Dá vontade de mexer, de sacudir, de transformar. Ainda mais quando a bagunça faz pensar, pois uma canção do tipo “Debil Metal” é simplesmente genial. Aqueles rapazes colocaram o comércio da arte e de artistas no lugarzinho deles: no bolso. Nem sei se os produtores sacaram que estavam dando palco e holofote de propósito para quem estava tirando sarro da indústria que eles controlavam. Se não sacaram e, quando perceberam, resolveram dar um fim definitivo para aquilo. Ou se sabiam, mas, de alguma maneira, algo saiu do controle e tomou proporção maior que o esperado. Afinal, morreram num acidente após o último show da turnê.

Teoria da conspiração à parte, o centro espírita kardecista dos confins de Taguatinga Sul, abaixo da Avenida Samdu, teve uma sessão, sei lá como chama, em que houve "manifestação" dos membros da banda, na mesma semana do acidente, para mandar recado para a Mocidade Espírita (esqueci o nome). Gente... Peraí. Não tinha um negócio de umbral? Como assim já estavam mandando mensagem? Incorporando? E outra coisa: por que estariam se manifestando na periferia de Brasília? Achei forçado.

Tive uma crise de riso às 7:00 da manhã de um domingo, na hora da prece, antes de sair para fazer campanha para arrecadação de alimentos batendo de porta em porta, quando o recado da banda foi passado. Domingo de madrugada, cara... Por nove anos aquele lugar foi a casa que não tive. Um amigo estava ao meu lado. Nós tínhamos tentado namorar havia um tempo, eu gostava muito dele, mas ele parecia ser melhor como amigo, pois algumas vezes, quando tínhamos o status de namoradinhos, ele chegava e falava com todo mundo, menos comigo. Outra vez, eu contei algo que, para mim era muito doloroso e ele disse "e daí?". Não era esse um grande amor que eu queria. Mais tarde na vida eu aceitei coisas piores de outros caras. Vai entender...

No ano seguinte, os acidentados da TAM, de Congonhas, também foram se manifestar numa mesa de desenvolvimento mediúnico da qual eu estava fazendo parte por conta da etapa do curso que todo mundo que frequenta faz, ESDE. Foi a gota d'água pra mim. Eu hem.... Como aquele povo pegando fogo achou aquela mesa mediúnica lá nos quintos de Taguá? Nam... Delírio coletivo. Rivotril pra todo mundo ali em baldes, ou melhor, jato de mangueira. Dei conta, não. Fui estudar para o Vestibular, que eu tinha descoberto que não dava para estudar na Universidade sem passar nessa prova.

Dali em diante, dando muita cabeçada, mas acertando também, segui o caminho que fui traçando para distante daquilo, errante, navegante, jamais esquecendo o que eu não queria mais e mirando, mesmo sem saber, no que eu sonhava. Finalizei muito do que eu precisava no ano passado. Falta o mochilão, que não sei se ainda quero.

Sou um pouco do deboche sagaz daqueles malucos. Entendo perfeitamente o que é ser útil até o momento em que se começa a abalar algo que não se esperava. A galera só acha legal quando é sobre os outros ou sobre mim. Se o comentário ácido com que se divertem por acaso for sobre quem está se divertindo, aí não presto mais. Bem "bobo da corte", o que é tudo, menos bobo. No fundo, vocês sabem que são péssimos e ficam torcendo pra quem aponta morrer num acidente de avião.         

09 de janeiro de 2024

 

 

Preciso aprender a ser só

Gandhia Brandão

Só ser até que sei. Sou encaminhada, apesar de tanto. Aquele roteiro cumprido de bom emprego, boa mãe, boas amizades, casa própria etc. Mas é aparecer alguém dando uma atençãozinha que já começo a imaginar como seria, se poderia ser.

Parar com isso.

Tantos artigos em publicações sérias, escritos por pessoas que estudam o assunto, sobre a dificuldade de conexão entre as pessoas, principalmente de sexos opostos e eu com essa ilusão de que pode ser diferente comigo por quê?

Além disso, poderia ser o quê? O que eu quero que seja ou gostaria que fosse que já não tenha sido um desastre?

Pessimista? Realista? Covarde?

Uma outra questão que ronda essas aí de cima é: que porra de sentimento desejante é esse que não para de latejar? Não tá fechando. É um misto de tesão com pavor que, no meu corpo, não combina.

Várias teorias. Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá...

Construção da sociedade moderna e instauração do capitalismo que nem é mais financeiro neoliberal, agora é capitalismo digital, que não se separam, mas nesse texto, eu vou tentar não atribuir tanta importância a esses nomes. Se bem que uma das teorias que mais me intriga é a da “prateleira do amor”, proposta por Valeska Zanello. Tem tudo a ver com o capital. A escolha pela estética, o status pela quantidade, o poder pelo evitamento. Tudo e sempre para homens.

Venho fazendo um esforço, de novo fazendo esforço, que inferno; contudo, venho outra vez fazendo um esforço para não viver a partir do que o homem fez ou faz, do que o homem disse ou diz, do que o homem atacou ou ataca, do que o homem palestrou ou palestra, do que o homem etc. Existir de acordo com o que eu quero. Existir de acordo com a história que eu estou escrevendo para mim. Fundar um mundo em que isso seja possível.

Ah, mas vivemos em um patriarcado. Oxe... Fake it until you make it. De alguma maneira esse patriarcado foi instaurado. De alguma maneira ele pode ser desmanchado no ar, de tão sólido.

Já ouvi tantas vezes de alguns homens que é “só uma questão de escolha”. Senti ódio todas elas. Quando ouvi da terapeuta do Centro de Atendimento à Mulher, que é especialista em violência doméstica e finalmente é alguém que entende o que eu falo, sobre como as escolhas inconscientes são feitas nos contextos de manipulação e agressão, aí sim, eu entendi a tal da “escolha”.

Não quero estar na prateleira de ninguém. Não vou forçar nenhuma barra para estar. Não sofro mais por isso. Estou desapegando da raiva que sinto dos homens. Minha motivação agora sou eu mesma.

Legal.

Mas o que eu faço com meu tesão? Não há autoamor que resolva isso aqui, não.

Vou reprimir?

(raiva volta para a cena)

        

28 de março de 2024

domingo, 16 de julho de 2023

 

Ruído

Gandhia Brandão

Tenho escrito muitas cartas. São motivos diferentes para pessoas diferentes em circunstâncias bem diferentes. Vários problemas seguidos e escolhi resolver alguns deles mandando cartas. Fiquei me perguntando o porquê de insistir nisso, já que, aparentemente, não estava funcionando. Parecia que eu falava, falava, escrevia, na verdade, e não conseguia comunicar. Eu escrevia as cartas com tanto cuidado, palavras pensadas, ou melhor, pensamentos cuidadosamente organizados em sequências de parágrafos com objetivos claros, concisos, coerentes. Uma explicação seguida de despedida. Uma explicação, exemplos e uma proposta. Uma explicação e um pedido de desculpas. Uma explicação seguida de um alerta. Um relato. Escrevo, leio, releio. Não vou dizer que reviso, pois a autora não consegue revisar seu próprio texto mesmo sendo também revisora de outros autores. Contudo, tento me colocar na posição de leitora, não somente do leitor para quem especificamente escrevo, mas também dele ou dela. Enfim, escrevia a carta e, ao receber a resposta, parecia que a pessoa tinha lido outro texto. Voltava lá para verificar se aquilo que a pessoa alegava estava ali de alguma forma. Que parte do signo poderia expressar aquele significado. Como aquela coisa teria se originado das palavras que eu havia escrito. Eu não conseguia ver. Não conseguia ler.

Esse recurso antigo já foi utilizado por mim em outras épocas, na maioria das vezes, com sucesso, o que me fez questionar se estava perdendo minha habilidade de me comunicar por algum tipo de doença degenerativa que causa perda de raciocínio, mas que eu não percebo, como se, para mim, o que escrevo fizesse sentido, mas só para mim e para ninguém mais.

Alguns alvos de minhas pregressas epístolas não se manifestaram. Dizem por aí que o silêncio é um tipo de resposta. Só se for de múltipla escolha e em branco.

No caso do síndico que não quis se pronunciar diante da delicada situação em que o “criativo” filho de um casal de surdos espalhou coisas terríveis sobre minha filha entre as crianças do condomínio, por conta de já ter sido ameaçado de processo por discriminação, eu até entendo o silêncio como resposta, embora eu mesma não tenha ficado em silêncio, por escrito, com os pais bolsominions.

Agora, no caso do ficante que sumiu... Se bem que, enquanto escrevi a frase, percebi que nem deveria ter escrito a carta. Essa foi perda de tempo. Atenta e forte para não ser abatida pela autoestima de um homem feio.

No mais, consegui resolver o que eu precisava através desse recurso considerado obsoleto que tanto aprecio.

Gosto do tempo que a carta tem. O tempo de pensar antes de escrever. O tempo de reler, reescrever. O tempo de pensar se quer mesmo mandar. O tempo que a pessoa tem para receber, para ler, para sentir e pensar sobre o que leu. O tempo que a pessoa pode ter para responder e igualmente pensar antes de escrever. Acho isso precioso.

Também gosto do cuidado. O tempo permite o cuidado. Permite que se construa a ideia que se quer compreendida. Permite que ela amadureça, respire. Sendo bem honesta, permite, inclusive, que certa sofisticação estilística ocorra na construção textual que irá transmitir a mensagem.

Falando em honestidade... Construir um texto, portanto, estruturar um pensamento, ideias, sendo honesto consigo é algo que deve ser perseguido. Só assim a escrita pode existir. O falso não me interessa. Só o que é honesto é real.

Ativei essa radicalidade como modo de sobrevivência na casa dos trinta e tem sido lindo e doloroso. Nesse mundo em que tudo conflui para o fingimento, basta usar um filtro, tem que ser muito forte para conseguir não mentir para si, consequentemente para os outros. Mas há que se optar todos os dias e ficar tranquila na certeza de que fingir é pior. Fingir é deixar que os outros decidam por você. Isso eu não quero.   

Há alguns anos, escrevi o seguinte trecho “Após mais de dois meses, sinto que Fulana se reaproxima. Sendo assim, ainda que certa de que cada uma continuará lendo de acordo com seu próprio ego e sem levar em conta o que sinto, escreverei para deixar claro que não quero me reaproximar.” Uma das pessoas receptoras da carta respondeu: “Suma mesmo! Se chegar perto de alguém que amo para magoar de novo, eu vou atrás de você. (...) Não culpe os outros por serem melhores que você. Não me teste. Vaza.” Ué... Eu estava pedindo para que não forçassem uma reaproximação, pois eu queria continuar afastada e a pessoa me ameaça no caso de eu aparecer? Fiquei intrigada. Todavia, como as demais cartas deram certo, interpretei como limitação da pessoa.

Até recentemente. Uma proposta de resolução para um problema de trabalho, uma ruptura de amizade, um término de namoro, um desabafo inútil para um agressor, uma queixa de omissão. Cinco cartas, cinco respostas sobre outros assuntos que não estavam nas cartas. O que aconteceu? Cogitei a doença degenerativa várias vezes.

Todos os receptores são pessoas que afirmam e reafirmam a importância do diálogo. Fico perturbada.

Até que obtive uma, apenas uma resposta condizente com o que eu havia escrito. Um pedido de reembolso. Valor alto. Motivos graves. No Brasil. Em Brasília. Meu ex-marido disse que eu nunca iria conseguir. Pois o prazo foi de uma semana após o envio da carta. Eu estava certa. Dessa vez, as interlocutoras pediram uns dias para avaliar criteriosamente cada aspecto mencionado em minha carta. Analisaram. Eu estava certa. Elas se deram tempo, pensaram e responderam com calma e bastante coerência. Decidiram pelo reembolso total para preservar os pacientes e o bom relacionamento. Sei. Não pediram desculpas para não assumirem a culpa por escrito. Eu estava certa ali e estava certa nas outras ocasiões também.

É isso. A escrita deixa o registro do incômodo. As pessoas que mais reivindicam o diálogo são as mais incapazes de realizá-lo. A conversa delas se dá entre elas e as vozes das cabeças delas. Não conseguem escutar. Não querem. Se é que escutam as vozes de suas cabeças... Acho que nem todas. Quando recebem a fala do outro por escrito, materializada, é como se a honestidade que o outro tem e que elas nunca vão conseguir ter se concretizasse ali na cara delas e mostrasse o quanto são fracassadas em suas vidas fingidas. Já perderam tudo, então, têm que ganhar a discussão, que elas chamam de diálogo e, na realidade, é um monólogo.

Quanto ao gênero textual, não deixarei que decidam por mim. Preciso do tempo de reflexão sobre assuntos delicados e a carta não é menos dialógica que uma conversa, pelo contrário. Os interlocutores que se virem com seus demônios e suas inabilidades hermenêuticas.

 

Sobre sonhar com uma cidade Gandhia Brandão Um bloco de carnaval cujo tema é a luta antimanicomial colocou a seguinte frase: "se a ...