Ruído
Gandhia
Brandão
Tenho
escrito muitas cartas. São motivos diferentes para pessoas diferentes em
circunstâncias bem diferentes. Vários problemas seguidos e escolhi resolver
alguns deles mandando cartas. Fiquei me perguntando o porquê de insistir nisso,
já que, aparentemente, não estava funcionando. Parecia que eu falava, falava,
escrevia, na verdade, e não conseguia comunicar. Eu escrevia as cartas com
tanto cuidado, palavras pensadas, ou melhor, pensamentos cuidadosamente
organizados em sequências de parágrafos com objetivos claros, concisos,
coerentes. Uma explicação seguida de despedida. Uma explicação, exemplos e uma
proposta. Uma explicação e um pedido de desculpas. Uma explicação seguida de um
alerta. Um relato. Escrevo, leio, releio. Não vou dizer que reviso, pois a
autora não consegue revisar seu próprio texto mesmo sendo também revisora de
outros autores. Contudo, tento me colocar na posição de leitora, não somente do
leitor para quem especificamente escrevo, mas também dele ou dela. Enfim,
escrevia a carta e, ao receber a resposta, parecia que a pessoa tinha lido
outro texto. Voltava lá para verificar se aquilo que a pessoa alegava estava
ali de alguma forma. Que parte do signo poderia expressar aquele significado.
Como aquela coisa teria se originado das palavras que eu havia escrito. Eu não
conseguia ver. Não conseguia ler.
Esse
recurso antigo já foi utilizado por mim em outras épocas, na maioria das vezes,
com sucesso, o que me fez questionar se estava perdendo minha habilidade de me
comunicar por algum tipo de doença degenerativa que causa perda de raciocínio,
mas que eu não percebo, como se, para mim, o que escrevo fizesse sentido, mas
só para mim e para ninguém mais.
Alguns
alvos de minhas pregressas epístolas não se manifestaram. Dizem por aí que o
silêncio é um tipo de resposta. Só se for de múltipla escolha e em branco.
No caso
do síndico que não quis se pronunciar diante da delicada situação em que o
“criativo” filho de um casal de surdos espalhou coisas terríveis sobre minha
filha entre as crianças do condomínio, por conta de já ter sido ameaçado de
processo por discriminação, eu até entendo o silêncio como resposta, embora eu
mesma não tenha ficado em silêncio, por escrito, com os pais bolsominions.
Agora, no
caso do ficante que sumiu... Se bem que, enquanto escrevi a frase, percebi que
nem deveria ter escrito a carta. Essa foi perda de tempo. Atenta e forte para
não ser abatida pela autoestima de um homem feio.
No mais,
consegui resolver o que eu precisava através desse recurso considerado obsoleto
que tanto aprecio.
Gosto do
tempo que a carta tem. O tempo de pensar antes de escrever. O tempo de reler,
reescrever. O tempo de pensar se quer mesmo mandar. O tempo que a pessoa tem
para receber, para ler, para sentir e pensar sobre o que leu. O tempo que a
pessoa pode ter para responder e igualmente pensar antes de escrever. Acho isso
precioso.
Também
gosto do cuidado. O tempo permite o cuidado. Permite que se construa a ideia
que se quer compreendida. Permite que ela amadureça, respire. Sendo bem
honesta, permite, inclusive, que certa sofisticação estilística ocorra na
construção textual que irá transmitir a mensagem.
Falando
em honestidade... Construir um texto, portanto, estruturar um pensamento,
ideias, sendo honesto consigo é algo que deve ser perseguido. Só assim a
escrita pode existir. O falso não me interessa. Só o que é honesto é real.
Ativei
essa radicalidade como modo de sobrevivência na casa dos trinta e tem sido
lindo e doloroso. Nesse mundo em que tudo conflui para o fingimento, basta usar
um filtro, tem que ser muito forte para conseguir não mentir para si,
consequentemente para os outros. Mas há que se optar todos os dias e ficar
tranquila na certeza de que fingir é pior. Fingir é deixar que os outros
decidam por você. Isso eu não quero.
Há alguns
anos, escrevi o seguinte trecho “Após mais de dois meses, sinto que Fulana se
reaproxima. Sendo assim, ainda que certa de que cada uma continuará lendo de
acordo com seu próprio ego e sem levar em conta o que sinto, escreverei para
deixar claro que não quero me reaproximar.” Uma das pessoas receptoras da carta
respondeu: “Suma mesmo! Se chegar perto de alguém que amo para magoar de novo,
eu vou atrás de você. (...) Não culpe os outros por serem melhores que você.
Não me teste. Vaza.” Ué... Eu estava pedindo para que não forçassem uma
reaproximação, pois eu queria continuar afastada e a pessoa me ameaça no caso
de eu aparecer? Fiquei intrigada. Todavia, como as demais cartas deram certo,
interpretei como limitação da pessoa.
Até recentemente.
Uma proposta de resolução para um problema de trabalho, uma ruptura de amizade,
um término de namoro, um desabafo inútil para um agressor, uma queixa de
omissão. Cinco cartas, cinco respostas sobre outros assuntos que não estavam
nas cartas. O que aconteceu? Cogitei a doença degenerativa várias vezes.
Todos os
receptores são pessoas que afirmam e reafirmam a importância do diálogo. Fico
perturbada.
Até que
obtive uma, apenas uma resposta condizente com o que eu havia escrito. Um
pedido de reembolso. Valor alto. Motivos graves. No Brasil. Em Brasília. Meu
ex-marido disse que eu nunca iria conseguir. Pois o prazo foi de uma semana
após o envio da carta. Eu estava certa. Dessa vez, as interlocutoras pediram uns
dias para avaliar criteriosamente cada aspecto mencionado em minha carta.
Analisaram. Eu estava certa. Elas se deram tempo, pensaram e responderam com
calma e bastante coerência. Decidiram pelo reembolso total para preservar os
pacientes e o bom relacionamento. Sei. Não pediram desculpas para não assumirem
a culpa por escrito. Eu estava certa ali e estava certa nas outras ocasiões
também.
É isso. A
escrita deixa o registro do incômodo. As pessoas que mais reivindicam o diálogo
são as mais incapazes de realizá-lo. A conversa delas se dá entre elas e as
vozes das cabeças delas. Não conseguem escutar. Não querem. Se é que escutam as
vozes de suas cabeças... Acho que nem todas. Quando recebem a fala do outro por
escrito, materializada, é como se a honestidade que o outro tem e que elas
nunca vão conseguir ter se concretizasse ali na cara delas e mostrasse o quanto
são fracassadas em suas vidas fingidas. Já perderam tudo, então, têm que ganhar
a discussão, que elas chamam de diálogo e, na realidade, é um monólogo.
Quanto ao
gênero textual, não deixarei que decidam por mim. Preciso do tempo de reflexão sobre
assuntos delicados e a carta não é menos dialógica que uma conversa, pelo
contrário. Os interlocutores que se virem com seus demônios e suas inabilidades
hermenêuticas.