Memórias
Assassinas
Gandhia Brandão
Hoje vivi uma viagem de volta
para minha adolescência. Como eu era sonhadora... Ainda sou. Realizei muitos
dos meus sonhos daquela época e me senti feliz pela constatação. Alguns deles
poderiam não ter sido sonhados, assim, não teriam sido perseguidos, portanto,
não teriam sido realizados e não teriam se tornado traumas enormes hahaha, mas
já foi. Sonhos incutidos nas cabeças das mulheres e que, se não houvesse
atribuição de funções por conta de biologia, eu jamais teria. Agora tenho
outros sonhos e sou outra, ainda sendo a mesma menina-velha, agora
velha-menina. Uma criança que foi obrigada a ser adulta. Uma senhora que
persegue a criança que não foi. Às vezes elas se encontram. É quando sou feliz.
Lembrei que, por ter sido
largada em todos os sentidos, fui formada por filmes, músicas, livros e
vivências com amigos. Também por uma religião que abandonei. Minha família
disfuncional me deformou, mas a arte e outros afetos me reformaram.
Uma banda que fez chacota da
indústria cultural apoiada pela própria elevando o pastiche dos principais
gêneros comerciais ao infinito deboche marcou o início de um processo bem
pessoal de esclarecimento que se encerrou ano passado, 28 anos depois. Parece
ridículo, talvez seja mesmo.
Naquela época, eu tinha 15
anos e decidi que tinha que sair da casa em que eu vivia, que seria professora
de literatura de gente adulta, que cantaria a Nona Sinfonia de Beethoven, que
veria o mar, que iria para a Europa, que viveria grandes amores, que teria
muitos livros (eu já lia, mas não eram meus hahaha), que minha casa teria dois
andares e que tudo seria cor-de-rosa, que faria uma viagem sozinha pelo mundo
(eu não conhecia o termo "mochilão").
Se não fosse a morte precoce
de todos os integrantes da banda que hipnotizou um país de, na época, 160
milhões de pessoas fazendo bagunça, eu não teria desconfiado da galera que
organizava o templo religioso que eu frequentava à tempo da minha "salvação".
Parece que estavam proibidos
de continuar alertando uma nação de que a festa é revolucionária e de que em
nosso caso, no caso específico deste país cuja história é escárnio, a alegria
fortalece a ponto de dar vontade de modificar as coisas a nosso favor. Dá
vontade de mexer, de sacudir, de transformar. Ainda mais quando a bagunça faz
pensar, pois uma canção do tipo “Debil Metal” é simplesmente genial. Aqueles
rapazes colocaram o comércio da arte e de artistas no lugarzinho deles: no
bolso. Nem sei se os produtores sacaram que estavam dando palco e holofote de
propósito para quem estava tirando sarro da indústria que eles controlavam. Se
não sacaram e, quando perceberam, resolveram dar um fim definitivo para aquilo.
Ou se sabiam, mas, de alguma maneira, algo saiu do controle e tomou proporção
maior que o esperado. Afinal, morreram num acidente após o último show da
turnê.
Teoria da conspiração à parte,
o centro espírita kardecista dos confins de Taguatinga Sul, abaixo da Avenida
Samdu, teve uma sessão, sei lá como chama, em que houve
"manifestação" dos membros da banda, na mesma semana do acidente,
para mandar recado para a Mocidade Espírita (esqueci o nome). Gente... Peraí.
Não tinha um negócio de umbral? Como assim já estavam mandando mensagem?
Incorporando? E outra coisa: por que estariam se manifestando na periferia de
Brasília? Achei forçado.
Tive uma crise de riso às 7:00
da manhã de um domingo, na hora da prece, antes de sair para fazer campanha
para arrecadação de alimentos batendo de porta em porta, quando o recado da
banda foi passado. Domingo de madrugada, cara... Por nove anos aquele lugar foi
a casa que não tive. Um amigo estava ao meu lado. Nós tínhamos tentado namorar
havia um tempo, eu gostava muito dele, mas ele parecia ser melhor como amigo,
pois algumas vezes, quando tínhamos o status de namoradinhos, ele
chegava e falava com todo mundo, menos comigo. Outra vez, eu contei algo que,
para mim era muito doloroso e ele disse "e daí?". Não era esse um
grande amor que eu queria. Mais tarde na vida eu aceitei coisas piores de outros
caras. Vai entender...
No ano seguinte, os
acidentados da TAM, de Congonhas, também foram se manifestar numa mesa de
desenvolvimento mediúnico da qual eu estava fazendo parte por conta da etapa do
curso que todo mundo que frequenta faz, ESDE. Foi a gota d'água pra mim. Eu hem....
Como aquele povo pegando fogo achou aquela mesa mediúnica lá nos quintos de
Taguá? Nam... Delírio coletivo. Rivotril pra todo mundo ali em baldes, ou
melhor, jato de mangueira. Dei conta, não. Fui estudar para o Vestibular, que
eu tinha descoberto que não dava para estudar na Universidade sem passar nessa
prova.
Dali em diante, dando muita
cabeçada, mas acertando também, segui o caminho que fui traçando para distante
daquilo, errante, navegante, jamais esquecendo o que eu não queria mais e
mirando, mesmo sem saber, no que eu sonhava. Finalizei muito do que eu precisava
no ano passado. Falta o mochilão, que não sei se ainda quero.
Sou um pouco do deboche sagaz
daqueles malucos. Entendo perfeitamente o que é ser útil até o momento em que
se começa a abalar algo que não se esperava. A galera só acha legal quando é
sobre os outros ou sobre mim. Se o comentário ácido com que se divertem por
acaso for sobre quem está se divertindo, aí não presto mais. Bem "bobo da
corte", o que é tudo, menos bobo. No fundo, vocês sabem que são péssimos e
ficam torcendo pra quem aponta morrer num acidente de avião.
09 de janeiro de 2024