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quinta-feira, 28 de março de 2024

 

Memórias Assassinas

Gandhia Brandão

Hoje vivi uma viagem de volta para minha adolescência. Como eu era sonhadora... Ainda sou. Realizei muitos dos meus sonhos daquela época e me senti feliz pela constatação. Alguns deles poderiam não ter sido sonhados, assim, não teriam sido perseguidos, portanto, não teriam sido realizados e não teriam se tornado traumas enormes hahaha, mas já foi. Sonhos incutidos nas cabeças das mulheres e que, se não houvesse atribuição de funções por conta de biologia, eu jamais teria. Agora tenho outros sonhos e sou outra, ainda sendo a mesma menina-velha, agora velha-menina. Uma criança que foi obrigada a ser adulta. Uma senhora que persegue a criança que não foi. Às vezes elas se encontram. É quando sou feliz.

Lembrei que, por ter sido largada em todos os sentidos, fui formada por filmes, músicas, livros e vivências com amigos. Também por uma religião que abandonei. Minha família disfuncional me deformou, mas a arte e outros afetos me reformaram.

Uma banda que fez chacota da indústria cultural apoiada pela própria elevando o pastiche dos principais gêneros comerciais ao infinito deboche marcou o início de um processo bem pessoal de esclarecimento que se encerrou ano passado, 28 anos depois. Parece ridículo, talvez seja mesmo.

Naquela época, eu tinha 15 anos e decidi que tinha que sair da casa em que eu vivia, que seria professora de literatura de gente adulta, que cantaria a Nona Sinfonia de Beethoven, que veria o mar, que iria para a Europa, que viveria grandes amores, que teria muitos livros (eu já lia, mas não eram meus hahaha), que minha casa teria dois andares e que tudo seria cor-de-rosa, que faria uma viagem sozinha pelo mundo (eu não conhecia o termo "mochilão").

Se não fosse a morte precoce de todos os integrantes da banda que hipnotizou um país de, na época, 160 milhões de pessoas fazendo bagunça, eu não teria desconfiado da galera que organizava o templo religioso que eu frequentava à tempo da minha "salvação".

Parece que estavam proibidos de continuar alertando uma nação de que a festa é revolucionária e de que em nosso caso, no caso específico deste país cuja história é escárnio, a alegria fortalece a ponto de dar vontade de modificar as coisas a nosso favor. Dá vontade de mexer, de sacudir, de transformar. Ainda mais quando a bagunça faz pensar, pois uma canção do tipo “Debil Metal” é simplesmente genial. Aqueles rapazes colocaram o comércio da arte e de artistas no lugarzinho deles: no bolso. Nem sei se os produtores sacaram que estavam dando palco e holofote de propósito para quem estava tirando sarro da indústria que eles controlavam. Se não sacaram e, quando perceberam, resolveram dar um fim definitivo para aquilo. Ou se sabiam, mas, de alguma maneira, algo saiu do controle e tomou proporção maior que o esperado. Afinal, morreram num acidente após o último show da turnê.

Teoria da conspiração à parte, o centro espírita kardecista dos confins de Taguatinga Sul, abaixo da Avenida Samdu, teve uma sessão, sei lá como chama, em que houve "manifestação" dos membros da banda, na mesma semana do acidente, para mandar recado para a Mocidade Espírita (esqueci o nome). Gente... Peraí. Não tinha um negócio de umbral? Como assim já estavam mandando mensagem? Incorporando? E outra coisa: por que estariam se manifestando na periferia de Brasília? Achei forçado.

Tive uma crise de riso às 7:00 da manhã de um domingo, na hora da prece, antes de sair para fazer campanha para arrecadação de alimentos batendo de porta em porta, quando o recado da banda foi passado. Domingo de madrugada, cara... Por nove anos aquele lugar foi a casa que não tive. Um amigo estava ao meu lado. Nós tínhamos tentado namorar havia um tempo, eu gostava muito dele, mas ele parecia ser melhor como amigo, pois algumas vezes, quando tínhamos o status de namoradinhos, ele chegava e falava com todo mundo, menos comigo. Outra vez, eu contei algo que, para mim era muito doloroso e ele disse "e daí?". Não era esse um grande amor que eu queria. Mais tarde na vida eu aceitei coisas piores de outros caras. Vai entender...

No ano seguinte, os acidentados da TAM, de Congonhas, também foram se manifestar numa mesa de desenvolvimento mediúnico da qual eu estava fazendo parte por conta da etapa do curso que todo mundo que frequenta faz, ESDE. Foi a gota d'água pra mim. Eu hem.... Como aquele povo pegando fogo achou aquela mesa mediúnica lá nos quintos de Taguá? Nam... Delírio coletivo. Rivotril pra todo mundo ali em baldes, ou melhor, jato de mangueira. Dei conta, não. Fui estudar para o Vestibular, que eu tinha descoberto que não dava para estudar na Universidade sem passar nessa prova.

Dali em diante, dando muita cabeçada, mas acertando também, segui o caminho que fui traçando para distante daquilo, errante, navegante, jamais esquecendo o que eu não queria mais e mirando, mesmo sem saber, no que eu sonhava. Finalizei muito do que eu precisava no ano passado. Falta o mochilão, que não sei se ainda quero.

Sou um pouco do deboche sagaz daqueles malucos. Entendo perfeitamente o que é ser útil até o momento em que se começa a abalar algo que não se esperava. A galera só acha legal quando é sobre os outros ou sobre mim. Se o comentário ácido com que se divertem por acaso for sobre quem está se divertindo, aí não presto mais. Bem "bobo da corte", o que é tudo, menos bobo. No fundo, vocês sabem que são péssimos e ficam torcendo pra quem aponta morrer num acidente de avião.         

09 de janeiro de 2024

 

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