Não tirem
meu chão!
Gandhia Brandão
Uma frase me vem à mente
sempre que uma das minhas filhas fica doente: podia ser comigo. Deve passar pela
cabeça de várias mães por aí. Eu não sei se isso é legal... Só sei que por aqui
é inevitável há 23 anos.
Eu poderia discorrer sobre a
desproporcionalidade entre a função maternidade e a função paternidade, mas que
preguiça... Prefiro falar que maternidade é uma instituição indigestamente
injusta em tantos níveis desde a concepção tanto conceitual quanto biológica e
pior: irrevogável. Não há nada nem ninguém que me convença, jamais irei pedir
que o façam, que há a remota possibilidade de divisão aproximada do que faz uma
mãe, a pessoa que gesta, que gera e qualquer outra pessoa – estou considerando
que a “paternidade” pode assumir outras caras, outros corpos na
contemporaneidade. Ou seja, mesmo que a pessoa parceira da mãe seja muito
massa e esteja ali presente em todos os momentos desde o planejamento, consultas
e exames pré-natal, parto, puerpério, primeiros dois anos e primeira infância,
até ali, só há como amenizar a carga. A partir da infância, pré-adolescência e
adolescência, talvez possamos conversar sobre divisão igual de
responsabilidades e tarefas relacionadas à cria. Antes, não.
Eu odeio isso com tanta força.
Quase tanto quanto odeio o fato de ninguém falar sobre isso. Ninguém avisar
isso.
Voltando um pouquinho: a
realidade das mulheres não é de parceria muito massa, né? Nós sabemos. Sendo
assim, piora muito.
Continuando: corpo. O corpo é
irreversível. É invadido, transformado, ocupado, rasgado e abandonado. Depois,
leva meses, anos para assumir uma outra forma posterior à animosidade geradora.
Enquanto isso, a mulher mãe
que gera não sabe mais quem é e tem que se reconstruir enquanto cuida de um ser
que também não sabe quem é e não fala. Ela tem que adivinhar tudo sozinha em meio
a muito cansaço e nenhuma lucidez. Mas ela consegue. Ela decifra. Observa, escuta,
acolhe, acalma, entra em simbiose com um mini humano que berra pelo que precisa.
Ela não pode berrar, senão é considerada louca, incapaz. Ela não tem mais
corpo, não tem mais sono, não tem mais identidade, não tem mais tempo, não tem
mais autonomia, não tem mais razão, mas não pode berrar. Ela tem que cuidar, nutrir,
ensinar, cozinhar, limpar, dar banho, dar colo, ninar, cantar, acarinhar,
trocar, estimular, tantos verbos, todos para o ser que gerou. A demanda é
infinita. Até a sua morte. Uma outra morte, pois ao parir, talvez já ao
conceber, uma primeira morte acontece.
A pessoa parceira tem que
entender, aceitar que suas ações devem se voltar para a mãe, para o que a mãe
precisa, para o que a mãe quer, para o que a mãe precisa, para o que a mãe
quer, para o que a mãe precisa, para o que a mãe quer – não tem muito o que
fazer com o bebê – o bebê precisa da mãe, a mãe precisa de alguém. A mãe
precisa de ajuda, qualquer ajuda, toda ajuda, muita ajuda, a ajuda que ela quer,
pois está devastada, devassada, desmanchada.
Se eu avançar para questões sociais,
econômicas, raciais, o buraco fica bem mais fundo, pois aquele lance que eu
mencionei ali sobre ter que cuidar e ter que reconstruir uma identidade pode se
transformar em ter que cuidar de um bebê e ter que sobreviver ou pode se
transformar em primeiro cuido de mim, pois tenho uma equipe enorme ao meu
dispor e, quando tenho tempo, visito meu bebê. Vou me manter em minha bolha da
classe média baixa urbana periférica esquerdista branca ex pobre que teve alguma pequena
ascensão social, que é de onde eu falo.
Eu não tive parcerias legais em
nenhuma das minhas duas gestações, uma de cada relacionamento significativo que
tive até hoje nessa vida. Os caras são legais. Ainda assim, não souberam ser
parceiros. Quero crer que não tiveram a consciência das falhas absurdas que estavam
cometendo. O primeiro era muito jovem. Mas eu também era. Eu não tive escolha.
Por que ele teve? O segundo era muito focado em si, em dinheiro e em cumprir o
roteiro do patriarcado. Suas escolhas nunca me priorizaram ou às crianças, somente
a si. Todavia, em sua linha de raciocínio, ele estava trabalhando pela família.
Não...
Enquanto eles viveram o que
queriam, ascenderam em suas carreiras, viajaram, realizaram sonhos, eu cuidei.
Só consegui cuidar renunciando a coisas muito preciosas para mim. Coisas que
muitas mães, cada uma com as suas particularidades, sabem quão doloroso, porém,
quão necessário é, ali, naquele momento decisório, deixar para depois, ou para
nunca mais, para um dia, quem sabe...
Portanto, a frase “podia ser
comigo”, pode vir que eu aguento, deixa que eu sofro por elas, carrega não só a
proteção que direcionamos a quem cuidamos, mas também a proteção de algo que se
torna quase a maior parte da identidade da mulher que renasce após o nascimento
de um filho. Se aquele filho sucumbe, nós sucumbimos – a gente fica sem chão,
pois o chão que pavimentamos desde que aquele filho nasceu foi para que ele
caminhasse. Um ser, o ser mãe, não poder nunca mais ser inteiro por ter gerado
outro é injusto, é violento. Vão dizer por aí que isso é belo. Que injusta é a
fome. Que violenta é a polícia militar. São, sim. São, também. Questões
existenciais não deveriam estar desvinculadas da existência só porque existem
outras questões. Tá tudo junto.
Numa semana em que quase me
senti bem após crise de depressão e troca de antidepressivo, uma filha foi
assaltada com violência física e a outra recebeu pré-diagnóstico de altas
habilidades e autismo. Na semana seguinte, a filha assaltada começou a tomar
remédio para dormir por conta do assalto e a filha que está sendo avaliada por
vários profissionais sofreu bullying ostensivo na escola e por telefone.
Não foi doença, mas a frase
ficou na minha cabeça o tempo todo...
Eu não tinha a menor condição
de ajudar ninguém. Não estava conseguindo fazer quase nada. Estava doente. Estava
péssima. Fazia um esforço enorme para realizar tarefas bem básicas como me
dirigir ao banheiro para fazer xixi. Contudo, alguma coisa gerou energia para
que eu conseguisse auxiliar a filha mais velha na delegacia, em conversas, em
escuta, em mensagens de checagem, em passagens rápidas pelo apezinho dela.
Eu tinha que arranjar uns momentinhos
para chorar, sim. Até porque eu ainda estava em processo de adaptação da
medicação nova. Aliás, eu nem sabia que dava pra chorar tanto, gente... Mas
isso é outro assunto.
Arranjei forças também para marcar
exames e avaliações diversas para a filha menor em meio a uma avalanche de
dúvidas, medos e pensamentos antecipatórios catastróficos. Na semana seguinte,
tripliquei as forças, pois tive que lidar, por conta do caso do bullying, com
coordenadora de escola, psicóloga de escola, professora de escola, pais de
colegas de escola, mas, principalmente, com minha pequena, que ficou muito
fragilizada ao receber ataques infundados de crueldade de gentinha que ela curtia
e com quem convivia diariamente.
Vários baques. Várias dores.
Várias lutas.
Reajustar...
Até agora eu não sei se melhorei
da depressão ou só deixei pra depois porque tenho que cuidar das meninas,
pavimentar mais um pedaço do caminho. O que sei é que esse caminho delas é também
o meu. O que acontece com elas, acontece comigo. É aí que está a
impossibilidade de dividir qualquer coisa da maternidade com quem quer que seja.
Elas são meu chão. Não tirem meu chão. Não sobra muita coisa.
26 de Junho de 2023