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quinta-feira, 28 de março de 2024

 

2023 não foi terrível, só doeu

Gandhia Brandão

Eu passei a virada de 2022 para 2023 sem minhas filhas, na prainha, com muita alegria e esperança de um ano bom, de um ano meu. Foi meu. Ainda não posso chamá-lo de bom, mas acho que o chamarei no futuro.

Rosa não quis ver os fogos, não quis fazer nada.

Clara estava, eu não me lembro onde Clara estava. Eu havia decidido e estava tentando muito não deixar de fazer coisas que são importantes para mim. A virada de ano é importante para mim. Um momento de reza, de projeção e de passagem. Eu preciso e gosto desse símbolo.

Ela ficou em casa. Eu fui. Fiquei pouco tempo e voltei pra casa assim que terminaram os fogos.

Hoje, às vésperas da próxima virada, tento me livrar da invenção de uma culpa: se não tivesse deixado a menina, o ano não teria sido tão duro com ela. Quanta arrogância...

No dia primeiro, posse de Lula, participei quase do jeito que eu queria. Fui cedo com Rosa, abrimos o evento com um cortejo emocionante. Ela estava feliz. Foi lindo. Não conseguiu ficar muito tempo. Não consegui deixá-la com a irmã e voltar. Assisti ao restante de casa, quase satisfeita, ainda mais decidida a não deixar de fazer coisas que são importantes para mim.

Tinha planos de continuar firme nas atividades físicas, na terapia, na alimentação saudável e na profissão de artista. Estava aguardando a convocação para o cargo de professora da SEEDF.

A vida olhou meu planner e rabiscou tudo.

Saí do grupo de cultura popular que integrei por 5 anos com um ciclo bem encerrado dentro de mim, consciente de que ali não era mais um espaço em que eu podia brincar feliz, portanto, não fazia mais sentido.

Tentei outros dois grupos. Um não deu certo, não combinávamos. O outro poderia ser, mas precisei de um intervalo e quando pude voltar, o grupo estava em crise. Não foi.

Enfrentei uma crise grave de depressão. Superei.

Tive um namorado que era casado e cuja esposa estava grávida - obviamente eu só descobri depois que terminei.

Recomecei a estudar música. Que delícia!

Fui convocada para o cargo dos meus sonhos, ainda melhor que o que eu estava esperando. Que incrível!

Meio do ano. Parecia que eu estava finalmente conseguindo não deixar de realizar coisas importantes para mim. Uma sensação de que algo iria dar errado. Deu.

Será que foi porque eu fiz uma promessa e não estou dando conta de cumprir? Eu vou cumprir por etapas. Além disso, eu fiz a promessa pra mim mesma. Eu tenho esse poder tão grande de estragar minha vida desse jeito? Acho que não, heim...

Rosa entrou em depressão. Começou a sofrer para ir para a escola. Desenvolveu ansiedade, teve episódios de pânico. Eu estava atenta porque ela havia sofrido dois ataques de bullying, um no condomínio, no final de 2022, que a isolou em casa; outro na escola, no final do primeiro semestre de 2023, que a isolou na sala de aula. Ela estava em terapia e eu sempre dando apoio. Tinha esperança de que conseguiria vencer essas dificuldades sem maiores problemas. Todavia, foi muito para ela. A escola vinha sendo negligente com algumas pequenas coisas desde o início do ano, mas estávamos conseguindo manejar. A partir da crise de depressão, um desastre, muito desrespeito. Rosa criou aversão ao ambiente escolar.

Parei tudo.

Dediquei todo o meu tempo, toda a minha energia à Rosa.

Ela e Clara são o que há de mais importante para mim.

Não tem música, atividade física, festa, nada mais importante que elas.

Minha filha precisou de ajuda. Estava perdendo a conexão com a vida. Estava em sofrimento.

Ela, bravamente, superou.

A crise de Rosa nos levou a buscar explicações para algumas outras peculiaridades que vinha apresentando. Estou tendo dificuldades enormes para conseguir encontrar profissionais competentes que possam avaliar uma adolescente com tais especificidades e traçar um caminho de auxílio, caso precise.

Muita angústia, dúvida, sobrecarga, ansiedade, decepção, perda de tempo, percepção de misoginia nos atendimentos... Entretanto, muita vontade de acertar e de ajudar minha filha. Persisto. Aprendi muito sobre as possíveis condições que ela possui e creio que consigo lidar com mais tranquilidade com as situações que derivam delas.

Rosa vem lidando com o processo de busca por diagnóstico com muita elegância. Curiosa e questionadora, mas sempre colaborando e ajudando nos momentos em que quebramos a cara (não foram poucos). Clara tem se perguntado sobre a possibilidade de também estar no espectro e uma nova busca está sendo iniciada.

No meio desse caos, tive que frequentar escola junto com ela para que ela conseguisse terminar o ano letivo, o que ela fez com muita garra,  enquanto me adaptava às várias novas atividades e funções do meu novo emprego, o que tanto desejei e cuja estreia curti como consegui. Até fiz amigos muito lindos.

Rosa começou a estudar piano e tocou lindamente num recital. Faz aulas de xadrez. Ganhou dois gatinhos. Está se interessando por livros. Ganhou um quarto de adolescente que ficou um arraso! Para isso, organizei várias coisas aqui de casa e fiz algumas coisinhas que sempre quis fazer.

Encontrei um amigo anjo que a recebeu em sua Sala de Altas Habilidades, o que foi um alento para ela.

Alguns amigos se afastaram, outros se distanciaram, mas continuaram cuidando de longe. Um movimento natural de quem muda de ambiente. A afirmação de quem é e quem não é.

Rompi com aqueles que chamam por aí de família enquanto eu chamo de veneno. Nunca mais vou permitir que ultrapassem meu limite ou o de minhas filhas. Só terá espaço em minha vida quem eu decidir que merece. Contato zero e no processo de desocupar minhas memórias das lembranças dessas pessoas.

Para dar aquele tempero errado, o pai de Rosa resolveu dar birra, me enfrentar, ser bem escroto com a filha e atrapalhar bastante em vez de ajudar. Contudo, me mantive firme em meu propósito de não mais intermediar a relação deles maquiando as falhas do homem para o conforto de Rosa e meu desespero. Não esperava, nem desejava que essa tomada de consciência de Rosa fosse tão cedo, muito menos num momento tão delicado, mas não tive como controlar. Enfrentando advogada e refazimento de acordo judicial.

Rosa voltou a socializar no condomínio e também tem um grupo de amigos de fora com quem conversa, sai e se diverte.

Tentamos uma mudança de endereço para tentar frequentar escola pública que supostamente seria mais sensível a questões de neurodivergência, mas a vida novamente ditou as regras e ficamos por aqui mesmo.

Ainda estamos assustadas com a péssima experiência da escola de 2023, porém torcendo muito para que a nova escola seja acolhedora e que Rosa seja muito feliz por lá.

Parece que havia muita coisa para arrumar, para limpar, para organizar. Faxina até de pessoas. Parece que eu consegui muito disso. Talvez, não tudo. Mas bastante. Inclusive, percebo que venho conseguindo lidar com situações de desconforto com mais tranquilidade, um sonho antigo.

Tenho bons planos para 2024, tenho boas perspectivas. Tenho fé. "A fé não costuma faiá."

Sendo assim, analisando com calma, não foi um ano ruim, só foi um ano de mudanças e mudar é doloroso.         

31 de dezembro de 2023

 

 

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