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sexta-feira, 29 de março de 2024

 

Chorei, ainda choro

Gandhia Brandão

Hoje eu vi o nome e meu estômago embrulhou. De novo. Dessa vez foi de raiva. De novo. Citado por uma cantora reconhecida. Fez a animação de um clipe dela.

Olha... Esse lance de parar de viver a partir do que me fizeram ou a partir das escolhas que eu fiz a partir do que me fizeram tem hora que parece impossível. Ver o cara fazendo sucesso é foda... Desejo mal? Não sei. Preferiria não ter que ter o nome bem-sucedido esfregado na minha cara com o trabalho bonito cuja liberdade de criação nunca foi arranhada pelas atitudes questionáveis. Eles são intocáveis. Quem fica destruída é a gente. Eu não consigo aceitar que é mera questão de escolha.

Quero parar de me perguntar o porquê. Por que o cara ficou meses me atazanando? Ele era namorado da minha prima. Essa aí é outra... nem... Eu morava na casa da família tradicional brasileira. A “favelada aproveitadora”. Tratada que nem lixo e nem percebia. Só sentia um mal-estar constante. A dona da casa também era minha prima, aliás, é - não morreu -, e tia daquela prima ali de cima - uma mistureira - portanto, eu sou prima seiláquegrau do filho da dona, que era meu parceiro. Engravidei no terceiro ano de namoro e ficamos por ali para terminarmos nossos estudos cuidando da criança, no caso, eu cuidando. Obviamente, eu já trabalhava. Ele, não. Família de migrantes que “deu certo”. Engenheiro e médica. Lago Sul. A minha, apesar de ter vindo do mesmo sertão, era a parte pobre. Professora. Mãe solo de três. Taguatinga. Outra história.

O cara fez uma música linda chamada “Migrador”. Eu chorava toda vez que um dos amigos, primo dele, cantava. Esse amigo e minha irmã, com quem não tenho mais contato, fizeram uma filha. Essa história é bem interessante, mas também é para outro momento. Ambas. A da minha sobrinha e a do corte de relações.

A prima namorada do cara do clipe é atriz. Na época, éramos todos universitários. Tem uma diferença enorme entre quem é universitário planopiloter e quem ralou que nem condenada para passar no terceiro vestibular antes das políticas afirmativas estudando, trabalhando, sendo humilhada por uma mãe monstro, sempre peixe fora d’água. Marginal porque marginalizada. Excluída na sutileza da risadinha, do comentário depreciativo, da substituição da canção que eu havia acabado de colocar, do deboche da roupa, da crítica velada ou nem tão velada assim, do "não gostei da ideia" mas vou falar como se fosse minha.

Interessante que ninguém dava risadinha da pessoa que atuou em novelinha da Igreja Universal por um cachê de 50 reais. Se bem que é mais assustador que engraçado, mesmo. Eu falei que a detestava para um cara com quem estava querendo fazer amizade e me lasquei. São amigos e ele é fã dela. Fiz a pior abordagem possível. Hoje ela pertence a um grupo de teatro que realiza trabalhos muito bons. Eu não acho que a detesto. Eu acho que detesto toda essa história.

Eu fiz mestrado e doutorado. Nenhum deles fez. Eu também sofri violência doméstica de todas as modalidades. Isso aí eu não vou afirmar nem desafirmar por ninguém.

Ela, a prima, não sei dizer com muita certeza se era desrespeitosa comigo, exclusivamente, ou se era sem noção em geral. Eu era muito maltratada na casa como um todo – ainda bem que a classe média alta não lê, senão iriam me acusar de calúnia, ou injúria: “Como assim? Era uma filha para nós. Que absurdo! Tinha todo o conforto material. Uma ingrata.” Sim, eu vivia numa casa à qual não pertencia, em que nada me pertencia, cujos objetos e espaços não tinham absolutamente nada a ver comigo e cujos habitantes não falavam comigo sem me diminuir. Linda a casa. Só que eu queria a minha casa, com minhas coisinhas, meus cheiros, meus hábitos, meu parceiro e minha filha. Esperei tanto por isso. Tanto, tanto. Cansei e fui embora.

Enquanto vivi ali esperando, amando aquele homem poeta que dizia muito sobre amor e quase nada fazia, aprendi muito sobre muito.

O cara animador de clipe me dedicou uma canção de Caetano, meu Caetano, chamada “Muito”, enquanto me olhava, me acariciava, passeava com seus lábios por minha pele. Eu estava na cama dele. A música tocando. Os olhos. A cortina. O coração.

Inclusive, aprendi sobre o que eu não gostava, o que eu não queria, o que não me satisfazia, o que eu não aceitava. Eu achava tudo muito desencaixado por ali. Mas era eu. Eu era desencaixada. O superficial era a regra. Eu gosto do profundo, então eu estava errada. Não eles. Eu era “o outro”. A outra. 

O cara tinha uma banda. Eu amava cantar. Mas eu trabalhava tanto. Estudava tanto. Cuidava da minha filha sozinha. Administrava tantas coisas sozinha. Não me lembro muito bem como fui me aproximando daquela galera, mas sei que tem a ver com o fato de que eu tinha carro. Tentando bancar uma vida que não era minha. A prima precisava de caronas para o Lago Norte, para festas e eventos. Minha irmã precisava de caronas para tudo. Eu estava bem isolada socialmente com filha pequena, trabalho e estudo. Eu acabei me entrosando um pouco com algumas pessoas e voltei a ter uma certa vida social.

A casa do cara era cheia de música. Eu fiquei encantada. Estava longe de mim, da minha voz, dos meus sonhos. Estava vivendo num lugar que não tinha a ver comigo, em que não era nem considerada gente, em que a patroa dizia para a empregada não fazer certas coisas para mim porque eu morava ali de favor.

O cara músico, namorado da minha prima atriz, tão livres para a arte, para criar, para transar, para viver, para viajar. Que legal! Várias outras pessoas artistas convivendo. Que massa! Começaram a prestar atenção em mim. Estava pertencendo a algo que era bonito. Que era verdadeiro.

Mentira...

O cara começou a flertar. Eu demorei um pouco para perceber.

Antes, ou depois, não me lembro, eu entrei na banda.

Antes, ou depois, não me lembro, um outro cara da banda flertou, desflertou, muito confuso, mas com pose de “sabetudo”, querendo ensinar todo mundo sobre “relacionamento aberto”. Um pioneiro do “amor livre só pra mim” no início dos anos dois mil.

A minha participação nessa banda foi um cometa. Rápida, intensa, brilhante e se apagou. Enquanto lá estive, aparecemos em jornais, fomos para a final de um festival, fizemos shows bem legais, inclusive com Rita Benneditto, me fizeram exigências que não haviam sido previamente combinadas, não gostaram da minha opinião quando me perguntaram e me expulsaram da banda. Quatro meses e um show sem mim depois, a banda se desfez. BEM FEITO!

O cara NUNCA falou uma única palavra sobre isso. Aliás, depois que conseguiu o que queria, nunca mais nos falamos. 

Muitos anos depois, nos vimos em um show do Marcelo Jeneci. Fraco. Meu coração saiu pelo cu. Ele arregalou os olhos que eu vi. Um tempo depois dos olhares cruzados, não sei dizer se foi meia hora ou dez segundos, ele me deu um abraço apertado. Eu não tive reação. Não consegui falar ou fazer nada. Não sei se ele falou alguma coisa. Paralisei. 

Que ódio.

Eu não ia querer estragar minha night, mas não fazer nada... Não gosto. Uma luta danada para conseguir reagir às violências e não fiz nada.

Esse cara me tocava escondido, falava coisas no meu ouvido, lambia meu pescoço, me olhava de maneiras que eu não consigo descrever, falava coisas de longe para que eu lesse seus lábios e fez uma música pra mim, né? Lógico. Eu fiz um poema de sofrimento pra ele, mas rasguei e joguei fora. Não me lembro se entreguei alguma versão. Até parece que se importaria.   

Estávamos numa festa numa casa no guará e ele me encurralou várias vezes em cantinhos. Me empurrava para um dos quartos. Me empurrava para detrás das portas. Me beijava. Me lambia. Pegava nos meus peitos. Eu sentia uma confusão de tesão, paixão, desespero e culpa. Minha prima também estava na festa. Ela tinha falado que estava feliz porque todos os homens estavam nos observando, visto que, segundo ela, éramos as mais bonitas da festa, mesmo eu não sendo “tão assim”.

Ao longo dos meses de flerte, assédio, sei lá que nome dou àquilo, afinal, éramos “muito jovens”, eu já tinha me apaixonado perdidamente. Peguei nojo da Adriana Calcanhoto. Ainda bem que era ela. Nunca gostei muito. Não me perdoaria se tivesse sido Maria Bethânia. A canção “Depois de ter você” foi meu hino. 

Eu contei para meu parceiro que estava apaixonada por outra pessoa. Apontei para o fato de que ele era muito negligente em muitos aspectos e que a abertura para aquele acontecimento emocional não era uma responsabilidade apenas minha. Afirmei que eu não gostaria de terminar nosso relacionamento e que precisávamos sair daquela casa, fundar nosso território. Implorei para irmos embora dali construir uma vida nossa. Ele ficou um mês inteiro sem falar comigo. Não terminamos, mas nada mudou.

Eu menti para minha prima. Ela perguntou se éramos nós dois transando no banheiro e eu disse que não. Depois daquilo eu não tive mais coragem de conviver numa boa. Fui me afastando. Tive minha primeira grande crise de depressão. Quatro meses para começar a me recuperar. Não foi apenas aquilo, mas foi também aquilo.  

O clipe do cara ilustra uma bela canção. Meu corpo sentiu calafrio inúmeras vezes perto desse cara. Tentativa de preencher um vazio no peito que nunca seria preenchido por nada nem ninguém além de mim mesma, muito menos pelas migalhas que eu recebia de um cara que tinha a cara de pau de flertar comigo ostensivamente na frente da namorada ou pelos farelos que eu tinha que catar na mesa da casa onde eu morava de favor. 

“Dos olhos o mar entornou” na beira de um rio em que fomos nadar pelados por ideia da prima. Eu chorei só. Minha barriga destruída pela gravidez precoce. Estrias do peito até a púbis com muita flacidez. Esperei chorando todo mundo entrar, sair, deitar e se secar ao sol. "O sol aê", que nem o refrão de uma das músicas da banda. Fui para um lugar distante e entrei no rio chorando e pensando: “Ninguém nunca mais vai me querer, eu fiquei horrível, muxibenta como meu primeiro namorado profetizou, e quadrada como o Titi Bordelia falou quando me viu grávida perto do Alameda Shopping.” Minha prima uma vez falou na frente de todo mundo que meu peito não era feio, só era cheio de estrias, mas até que tinha um formato ok.  

“Nosso amor” nunca existiu, mas eu chorei só inúmeras vezes. Inúmeras. A Iemanjá afogando e depois correndo e depois sentada a contemplar. Aqueles cabelos enormes são meus. O cara nem sabe. Eu os mantive daquele jeito por mais de dez anos. Só cortei no dia da cirurgia da minha filha que, com 4 meses teve que tirar um “caroço” do pulmão. Eu era só uma menina.

Ele finalmente me empurrou para o banheiro, trancou a porta, eu mole, apaixonada e apavorada. “Para. Ela vai ver. Assim eu não quero. Não é assim que eu quero fazer isso. Não tá gostoso pra mim. Desse jeito, não.”

Me virou de costas num canto. Eu usava um body. A barriga. Ele perguntou “O que é isso?” Provavelmente eu estava dificultando alguma coisa. Eu me desculpei. Eu me desculpei e me justifiquei. Ceis têm noção? Desabotoei o body envergonhada. Podemos dizer que foram 7 segundos consensuais. Eu acho.

Ele disse para eu esperar um pouco para sair do banheiro.

Não me lembro de mais nada. Só de chorar. Só.

 

29 de março de 2024

 

 

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