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quinta-feira, 28 de março de 2024

 

Preciso aprender a ser só

Gandhia Brandão

Só ser até que sei. Sou encaminhada, apesar de tanto. Aquele roteiro cumprido de bom emprego, boa mãe, boas amizades, casa própria etc. Mas é aparecer alguém dando uma atençãozinha que já começo a imaginar como seria, se poderia ser.

Parar com isso.

Tantos artigos em publicações sérias, escritos por pessoas que estudam o assunto, sobre a dificuldade de conexão entre as pessoas, principalmente de sexos opostos e eu com essa ilusão de que pode ser diferente comigo por quê?

Além disso, poderia ser o quê? O que eu quero que seja ou gostaria que fosse que já não tenha sido um desastre?

Pessimista? Realista? Covarde?

Uma outra questão que ronda essas aí de cima é: que porra de sentimento desejante é esse que não para de latejar? Não tá fechando. É um misto de tesão com pavor que, no meu corpo, não combina.

Várias teorias. Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá...

Construção da sociedade moderna e instauração do capitalismo que nem é mais financeiro neoliberal, agora é capitalismo digital, que não se separam, mas nesse texto, eu vou tentar não atribuir tanta importância a esses nomes. Se bem que uma das teorias que mais me intriga é a da “prateleira do amor”, proposta por Valeska Zanello. Tem tudo a ver com o capital. A escolha pela estética, o status pela quantidade, o poder pelo evitamento. Tudo e sempre para homens.

Venho fazendo um esforço, de novo fazendo esforço, que inferno; contudo, venho outra vez fazendo um esforço para não viver a partir do que o homem fez ou faz, do que o homem disse ou diz, do que o homem atacou ou ataca, do que o homem palestrou ou palestra, do que o homem etc. Existir de acordo com o que eu quero. Existir de acordo com a história que eu estou escrevendo para mim. Fundar um mundo em que isso seja possível.

Ah, mas vivemos em um patriarcado. Oxe... Fake it until you make it. De alguma maneira esse patriarcado foi instaurado. De alguma maneira ele pode ser desmanchado no ar, de tão sólido.

Já ouvi tantas vezes de alguns homens que é “só uma questão de escolha”. Senti ódio todas elas. Quando ouvi da terapeuta do Centro de Atendimento à Mulher, que é especialista em violência doméstica e finalmente é alguém que entende o que eu falo, sobre como as escolhas inconscientes são feitas nos contextos de manipulação e agressão, aí sim, eu entendi a tal da “escolha”.

Não quero estar na prateleira de ninguém. Não vou forçar nenhuma barra para estar. Não sofro mais por isso. Estou desapegando da raiva que sinto dos homens. Minha motivação agora sou eu mesma.

Legal.

Mas o que eu faço com meu tesão? Não há autoamor que resolva isso aqui, não.

Vou reprimir?

(raiva volta para a cena)

        

28 de março de 2024

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