Preciso
aprender a ser só
Gandhia Brandão
Só ser até que sei. Sou
encaminhada, apesar de tanto. Aquele roteiro cumprido de bom emprego, boa mãe, boas
amizades, casa própria etc. Mas é aparecer alguém dando uma atençãozinha que já
começo a imaginar como seria, se poderia ser.
Parar com isso.
Tantos artigos em publicações
sérias, escritos por pessoas que estudam o assunto, sobre a dificuldade de conexão
entre as pessoas, principalmente de sexos opostos e eu com essa ilusão de que
pode ser diferente comigo por quê?
Além disso, poderia ser o quê?
O que eu quero que seja ou gostaria que fosse que já não tenha sido um
desastre?
Pessimista? Realista? Covarde?
Uma outra questão que ronda
essas aí de cima é: que porra de sentimento desejante é esse que não para de
latejar? Não tá fechando. É um misto de tesão com pavor que, no meu corpo, não
combina.
Várias teorias. Blá blá blá blá
blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá...
Construção da sociedade
moderna e instauração do capitalismo que nem é mais financeiro neoliberal, agora
é capitalismo digital, que não se separam, mas nesse texto, eu vou tentar não
atribuir tanta importância a esses nomes. Se bem que uma das teorias que mais
me intriga é a da “prateleira do amor”, proposta por Valeska Zanello. Tem tudo
a ver com o capital. A escolha pela estética, o status pela quantidade, o poder
pelo evitamento. Tudo e sempre para homens.
Venho fazendo um esforço, de
novo fazendo esforço, que inferno; contudo, venho outra vez fazendo um esforço
para não viver a partir do que o homem fez ou faz, do que o homem disse ou diz,
do que o homem atacou ou ataca, do que o homem palestrou ou palestra, do que o
homem etc. Existir de acordo com o que eu quero. Existir de acordo com a
história que eu estou escrevendo para mim. Fundar um mundo em que isso seja
possível.
Ah, mas vivemos em um
patriarcado. Oxe... Fake it until
you make it. De alguma maneira esse patriarcado foi
instaurado. De alguma maneira ele pode ser desmanchado no ar, de tão sólido.
Já ouvi tantas vezes de alguns
homens que é “só uma questão de escolha”. Senti ódio todas elas. Quando ouvi da
terapeuta do Centro de Atendimento à Mulher, que é especialista em violência
doméstica e finalmente é alguém que entende o que eu falo, sobre como as
escolhas inconscientes são feitas nos contextos de manipulação e agressão, aí
sim, eu entendi a tal da “escolha”.
Não quero estar na
prateleira de ninguém. Não vou forçar nenhuma barra para estar. Não
sofro mais por isso. Estou desapegando da raiva que sinto dos homens. Minha
motivação agora sou eu mesma.
Legal.
Mas o que eu faço com meu
tesão? Não há autoamor que resolva isso aqui, não.
Vou reprimir?
(raiva volta para a cena)
28 de março de 2024