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sábado, 13 de abril de 2024

Sobre sonhar com uma cidade

Gandhia Brandão

Um bloco de carnaval cujo tema é a luta antimanicomial colocou a seguinte frase: "se a cidade fosse nossa?" (vou deixar como uma pergunta). Depois completou, em outro post, genial: "imagine uma cidade planejada para potencializar diferentes corpos e vivências."

Eu imagino todos os dias, Rivotrio. Principalmente ao planejar minha rotina de modo a evitar engarrafamentos longos no trajeto de volta do plano piloto para minha satélite ou ao fazer malabarismos para organizar a alimentação da minha filha no vai e vem plano-satélite porque as terapias dela só existem far far away ou quando vou fazer qualquer coisa à noite e tenho medo de voltar tarde sozinha - citando coisinhas light porque esse é meu recorte de classe pós mini ascensão pós políticas públicas de painho Lula e Dilmãe.

A iniciativa de quem tem tempo, condições e urgência de questionar os espaços, as relações, a (des) organização social e a própria existência humana é, além de linda, importante e necessária. Mas aí vem o paredão invisível da classe social que é construído de linguagem, de alcance, de opressões que não adianta mencionar aqui porque as pessoas, ainda que muito bem intencionadas, não enxergam, não ligam ou, na real, não é papel delas lidar com isso porque o que elas podem fazer, já estão fazendo: construir bloquinhos legais pra gente brincar.

Eu não falo asanortês, demorei pra entender isso, mas já aceitei. Tá tudo bem agora hahaha. Adoro a movimentação que os planopiloters intentam com fanfarras e bloquinhos de carnaval meio "a vida de Tina" e sempre que eu ficar sabendo e conseguir, vou aproveitar, pois é neles que me divirto e me sinto segura, mesmo sem pertencer.

Sendo mãe de duas meninas neuroatípicas, tendo minha depressão/ansiedade eu mesma e tentando sair de um ciclo de violência longo em tratamento no CEAM (obrigada, SUS) e estereotipada por gente que era "amiga" como "carente" ou "probleminha" ou "personalidade forte", tendo sido "diagnosticada" de louca nos rolês por aí por algozes (risos) com intenção de me atribuir mais títulos além do de Doutora em Literatura e de Melhor Voz Feminina Nacional, eu louvo o Rivotrio e sua intenção.

Fico triste com algumas coisas, mas estou aprendendo tardiamente que o todo, às vezes, é mais importante que as partes, só às vezes. Tem coletivo "estranho, com gente esquisita" que vai fazer parte, mas é isso.

Participo desencaixada talvez por eu ser assim, mesmo, e não pelo fato de imaginarem uma cidade na Asa Norte, que não representa A CIDADE, não alcança AS PESSOAS, todavia, as que estarão lá (estaremos), estão tentando, sonhando, criando, brincando no TERRITÓRIO em que é POSSÍVEL no bloco feito pelas pessoas que PODEM.

Orgulho-me de saber que não me adapto ao que não me contempla: se isso é ser louca, orgulho-me de ser.

Vai ser lindo 🌟

PS. Meus pés... Ah, Carnaval... Tô toda lascada, mas você não me destrói, você me reconstrói. Te amo ♥️

 

17 de fevereiro de 2024

 

 

  

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