Gandhia
Brandão
Um
bloco de carnaval cujo tema é a luta antimanicomial colocou a seguinte frase:
"se a cidade fosse nossa?" (vou deixar como uma pergunta). Depois
completou, em outro post, genial: "imagine uma cidade planejada para
potencializar diferentes corpos e vivências."
Eu
imagino todos os dias, Rivotrio. Principalmente ao planejar minha rotina de
modo a evitar engarrafamentos longos no trajeto de volta do plano piloto para
minha satélite ou ao fazer malabarismos para organizar a alimentação da minha
filha no vai e vem plano-satélite porque as terapias dela só existem far far
away ou quando vou fazer qualquer coisa à noite e tenho medo de voltar
tarde sozinha - citando coisinhas light porque esse é meu recorte de
classe pós mini ascensão pós políticas públicas de painho Lula e Dilmãe.
A
iniciativa de quem tem tempo, condições e urgência de questionar os espaços, as
relações, a (des) organização social e a própria existência humana é, além de
linda, importante e necessária. Mas aí vem o paredão invisível da classe social
que é construído de linguagem, de alcance, de opressões que não adianta
mencionar aqui porque as pessoas, ainda que muito bem intencionadas, não
enxergam, não ligam ou, na real, não é papel delas lidar com isso porque o que
elas podem fazer, já estão fazendo: construir bloquinhos legais pra gente
brincar.
Eu não
falo asanortês, demorei pra entender isso, mas já aceitei. Tá tudo bem agora
hahaha. Adoro a movimentação que os planopiloters intentam com fanfarras e
bloquinhos de carnaval meio "a vida de Tina" e sempre que eu ficar
sabendo e conseguir, vou aproveitar, pois é neles que me divirto e me sinto
segura, mesmo sem pertencer.
Sendo
mãe de duas meninas neuroatípicas, tendo minha depressão/ansiedade eu mesma e
tentando sair de um ciclo de violência longo em tratamento no CEAM (obrigada,
SUS) e estereotipada por gente que era "amiga" como
"carente" ou "probleminha" ou "personalidade
forte", tendo sido "diagnosticada" de louca nos rolês por aí por
algozes (risos) com intenção de me atribuir mais títulos além do de Doutora em
Literatura e de Melhor Voz Feminina Nacional, eu louvo o Rivotrio e sua
intenção.
Fico
triste com algumas coisas, mas estou aprendendo tardiamente que o todo, às
vezes, é mais importante que as partes, só às vezes. Tem coletivo
"estranho, com gente esquisita" que vai fazer parte, mas é isso.
Participo
desencaixada talvez por eu ser assim, mesmo, e não pelo fato de imaginarem uma
cidade na Asa Norte, que não representa A CIDADE, não alcança AS PESSOAS,
todavia, as que estarão lá (estaremos), estão tentando, sonhando, criando,
brincando no TERRITÓRIO em que é POSSÍVEL no bloco feito pelas pessoas que
PODEM.
Orgulho-me
de saber que não me adapto ao que não me contempla: se isso é ser louca,
orgulho-me de ser.
Vai
ser lindo 🌟
PS.
Meus pés... Ah, Carnaval... Tô toda lascada, mas você não me destrói, você me
reconstrói. Te amo ♥️
17
de fevereiro de 2024