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domingo, 16 de julho de 2023

 

Ruído

Gandhia Brandão

Tenho escrito muitas cartas. São motivos diferentes para pessoas diferentes em circunstâncias bem diferentes. Vários problemas seguidos e escolhi resolver alguns deles mandando cartas. Fiquei me perguntando o porquê de insistir nisso, já que, aparentemente, não estava funcionando. Parecia que eu falava, falava, escrevia, na verdade, e não conseguia comunicar. Eu escrevia as cartas com tanto cuidado, palavras pensadas, ou melhor, pensamentos cuidadosamente organizados em sequências de parágrafos com objetivos claros, concisos, coerentes. Uma explicação seguida de despedida. Uma explicação, exemplos e uma proposta. Uma explicação e um pedido de desculpas. Uma explicação seguida de um alerta. Um relato. Escrevo, leio, releio. Não vou dizer que reviso, pois a autora não consegue revisar seu próprio texto mesmo sendo também revisora de outros autores. Contudo, tento me colocar na posição de leitora, não somente do leitor para quem especificamente escrevo, mas também dele ou dela. Enfim, escrevia a carta e, ao receber a resposta, parecia que a pessoa tinha lido outro texto. Voltava lá para verificar se aquilo que a pessoa alegava estava ali de alguma forma. Que parte do signo poderia expressar aquele significado. Como aquela coisa teria se originado das palavras que eu havia escrito. Eu não conseguia ver. Não conseguia ler.

Esse recurso antigo já foi utilizado por mim em outras épocas, na maioria das vezes, com sucesso, o que me fez questionar se estava perdendo minha habilidade de me comunicar por algum tipo de doença degenerativa que causa perda de raciocínio, mas que eu não percebo, como se, para mim, o que escrevo fizesse sentido, mas só para mim e para ninguém mais.

Alguns alvos de minhas pregressas epístolas não se manifestaram. Dizem por aí que o silêncio é um tipo de resposta. Só se for de múltipla escolha e em branco.

No caso do síndico que não quis se pronunciar diante da delicada situação em que o “criativo” filho de um casal de surdos espalhou coisas terríveis sobre minha filha entre as crianças do condomínio, por conta de já ter sido ameaçado de processo por discriminação, eu até entendo o silêncio como resposta, embora eu mesma não tenha ficado em silêncio, por escrito, com os pais bolsominions.

Agora, no caso do ficante que sumiu... Se bem que, enquanto escrevi a frase, percebi que nem deveria ter escrito a carta. Essa foi perda de tempo. Atenta e forte para não ser abatida pela autoestima de um homem feio.

No mais, consegui resolver o que eu precisava através desse recurso considerado obsoleto que tanto aprecio.

Gosto do tempo que a carta tem. O tempo de pensar antes de escrever. O tempo de reler, reescrever. O tempo de pensar se quer mesmo mandar. O tempo que a pessoa tem para receber, para ler, para sentir e pensar sobre o que leu. O tempo que a pessoa pode ter para responder e igualmente pensar antes de escrever. Acho isso precioso.

Também gosto do cuidado. O tempo permite o cuidado. Permite que se construa a ideia que se quer compreendida. Permite que ela amadureça, respire. Sendo bem honesta, permite, inclusive, que certa sofisticação estilística ocorra na construção textual que irá transmitir a mensagem.

Falando em honestidade... Construir um texto, portanto, estruturar um pensamento, ideias, sendo honesto consigo é algo que deve ser perseguido. Só assim a escrita pode existir. O falso não me interessa. Só o que é honesto é real.

Ativei essa radicalidade como modo de sobrevivência na casa dos trinta e tem sido lindo e doloroso. Nesse mundo em que tudo conflui para o fingimento, basta usar um filtro, tem que ser muito forte para conseguir não mentir para si, consequentemente para os outros. Mas há que se optar todos os dias e ficar tranquila na certeza de que fingir é pior. Fingir é deixar que os outros decidam por você. Isso eu não quero.   

Há alguns anos, escrevi o seguinte trecho “Após mais de dois meses, sinto que Fulana se reaproxima. Sendo assim, ainda que certa de que cada uma continuará lendo de acordo com seu próprio ego e sem levar em conta o que sinto, escreverei para deixar claro que não quero me reaproximar.” Uma das pessoas receptoras da carta respondeu: “Suma mesmo! Se chegar perto de alguém que amo para magoar de novo, eu vou atrás de você. (...) Não culpe os outros por serem melhores que você. Não me teste. Vaza.” Ué... Eu estava pedindo para que não forçassem uma reaproximação, pois eu queria continuar afastada e a pessoa me ameaça no caso de eu aparecer? Fiquei intrigada. Todavia, como as demais cartas deram certo, interpretei como limitação da pessoa.

Até recentemente. Uma proposta de resolução para um problema de trabalho, uma ruptura de amizade, um término de namoro, um desabafo inútil para um agressor, uma queixa de omissão. Cinco cartas, cinco respostas sobre outros assuntos que não estavam nas cartas. O que aconteceu? Cogitei a doença degenerativa várias vezes.

Todos os receptores são pessoas que afirmam e reafirmam a importância do diálogo. Fico perturbada.

Até que obtive uma, apenas uma resposta condizente com o que eu havia escrito. Um pedido de reembolso. Valor alto. Motivos graves. No Brasil. Em Brasília. Meu ex-marido disse que eu nunca iria conseguir. Pois o prazo foi de uma semana após o envio da carta. Eu estava certa. Dessa vez, as interlocutoras pediram uns dias para avaliar criteriosamente cada aspecto mencionado em minha carta. Analisaram. Eu estava certa. Elas se deram tempo, pensaram e responderam com calma e bastante coerência. Decidiram pelo reembolso total para preservar os pacientes e o bom relacionamento. Sei. Não pediram desculpas para não assumirem a culpa por escrito. Eu estava certa ali e estava certa nas outras ocasiões também.

É isso. A escrita deixa o registro do incômodo. As pessoas que mais reivindicam o diálogo são as mais incapazes de realizá-lo. A conversa delas se dá entre elas e as vozes das cabeças delas. Não conseguem escutar. Não querem. Se é que escutam as vozes de suas cabeças... Acho que nem todas. Quando recebem a fala do outro por escrito, materializada, é como se a honestidade que o outro tem e que elas nunca vão conseguir ter se concretizasse ali na cara delas e mostrasse o quanto são fracassadas em suas vidas fingidas. Já perderam tudo, então, têm que ganhar a discussão, que elas chamam de diálogo e, na realidade, é um monólogo.

Quanto ao gênero textual, não deixarei que decidam por mim. Preciso do tempo de reflexão sobre assuntos delicados e a carta não é menos dialógica que uma conversa, pelo contrário. Os interlocutores que se virem com seus demônios e suas inabilidades hermenêuticas.

 

Sobre sonhar com uma cidade Gandhia Brandão Um bloco de carnaval cujo tema é a luta antimanicomial colocou a seguinte frase: "se a ...