terça-feira, 28 de março de 2023

PROFESSORA ELISABETE TENREIRO, Presente!


Sou professora.

Minha família é cheia de professoras: mãe, avó, tia.
Pessoas muito importantes em minha vida pessoal são professores.
Pessoas mais que importantes para o mundo são professores.
PROFESSORES SÃO IMPORTANTES E ESSENCIAIS PARA A HUMANIDADE!

Nos últimos 10 anos, especialmente, temos sido alvo direto do fascismo: vigiados, cerceados, silenciados, desrespeitados, menosprezados, explorados e humilhados. 

Escolas, ou melhor, empresas privadas nos tratam desumanamente nos sobrecarregando com preenchimento de 300 mil relatórios, elaboração de planejamentos, criação de atividades, desenvolvimento de questões e montagem de provas, criação de atividades e planejamentos específicos para alunos atípicos SEM TEMPO HÁBIL e SEM REMUNERAÇÃO PARA TAL, visto que recebemos apenas UMA HORA AULA para fazer essas tarefas e muito mais, pois temos que corrigir todas as tarefas, dar visto nos cadernos, organizar as pastas e portfólios de cada aluno, estar sempre lindas e bem arrumadas e ainda atender os responsáveis que exigem que tal palavra não seja dita em sala, pois fere suas crenças religiosas; ou que exigem que você não ensine tais páginas do livro, pois estão difundindo "ideologia de gênero"; ou que exigem que você não use um pano na cabeça, pois o filho está com medo; ou que exigem que você não ensine que a pronúncia de "beach" não é com som curto, mas sim longo, senão vira um palavrão te acusando de ensinar palavrão para os alunos, sendo que você está justamente evitando o uso do tal palavrão; ou que exigem que você reprima comportamentos afeminados de um aluno porque o outro está incomodado; etc.

Comecei a dar aula em escola de Educação Básica após sair traumatizada de empresa de "ensino" Superior que visava apenas o recebimento de mensalidades sem qualquer cuidado com pesquisa, elaboração de ementas atualizadas, cursos de extensão, revisão bibliográfica, renovação de suportes midiáticos, produção intelectual docente ou discente, muito menos aproximação com a comunidade. Cultos/celebrações fundamentalistas cristãos ocorriam nos pátios durante intervalos ainda que não fosse uma instituição religiosa e ai de quem se queixasse de não poder descansar a cabeça no horário de descanso por conta da ladainha. Os mesmos entusiastas da bíblia questionavam qualquer linha literária que mencionasse algo contrário ao que seus pastores pregavam. Nem era eu que escolhia as obras. A ementa vinha prontinha para as minhas mãos. Até apedrejado meu carro foi por conta de um conto de Mia Couto. Apoio? Nenhum. Meus colegas? Silêncio total. Isso foi na era do Vampiro Temer. Eu falava pra todo mundo parar de dar palco para aqueles lunáticos, pois estavam ganhando força. Mal sabia eu que era o fascismo se instaurando e um projeto muito bem-feito sendo executado. 

Sofri. Tentei um concurso para Instituto Federal - MEU SONHO! Demorei para conseguir parar e estudar para um concurso nessa vida após 2 divórcios, muito machismo, uma filha doente, violência doméstica, outra filha bebê, depressão, ansiedade, pânico, pânicos. Crescida em Taguatinga, quase desenganada por professores de minha escola pública que diziam que eu jamais teria chance de frequentar uma universidade. Passei no terceiro vestibular, em 1999. Era FHC, UnB sucateada, porém, ainda ocupada apenas pela elite brasiliense. Aquela época em que era moda falar que não tinha papel higiênico no banheiro, sabe? Não somente fiz a graduação, como segui para o Mestrado e para o Doutorado, já com o empurrão de pai Lula, Dilmãe e Bolsa Capes. Acompanhei o início de muitas mudanças serem interrompidas por um golpe. Claro que eu engravidei no segundo semestre de graduação, então, como disse um homem perdido esses dias: Gandhia, você não fez UnB, você fez as disciplinas. Trabalhava, estudava, era mãe, tudo ao mesmo tempo. Às vezes fazia música de alguma maneira torta. Sempre algum homem me atrapalhava de alguma maneira certeira. Enquanto insistia em ser mestre e depois doutora sem participar de todos os congressos e sem publicar todos os artigos, dava aulas de inglês para ricos. Passei no concurso para o IFB, mas não entre os primeiríssimos. Não fui convocada nem por Temer, nem por Bolsonaro. Me convoca, Lula?

Muitas vezes, chefes não têm a menor ideia do que você ensina e mandam você fazer coisas que vão totalmente DE encontro ao que deve ser feito, ou seja, atrapalham em vez de ajudar. 

Quando se dão conta de que você é muito mais qualificada, começam a assediar. É cada maluquice... No meu caso, totalmente desnecessário, pois nunca pretendi ser chefe de nada. Eu gosto é de dar aula.

Outras tantas vezes, em vez de termos nossa autoridade respaldada pela instituição quando uma família vem questionar o motivo pelo qual você contou ao aluno que a terra é redonda e que o vídeo que ele viu no YouTube não dizia a verdade, chefes pedem desculpas à família e garantem que a professora não vai mais "fazer isso".

Enquanto isso, little monsters vão achando que resolvem tudo chamando mommy or daddy. Não gostei, demite ela.

Esse é o mundo privado, por enquanto.

Já, já chegam as armas.

No mundo público, já chegaram.

Lembrando que alunos são vítimas também, mas isso é para outro texto.

Desisti das escolas privadas em julho do ano passado após ter escutado que não existe racismo no Brasil. que todos os seres são humanos, que não existem diferenças, que eu sou muito exagerada e que as pessoas têm direito a ter opiniões diferentes. Eu gostava daquela escola até o período anterior àquele semestre. Era outra direção e outras coordenações não fascistas. Não sou conivente, não me calo e arco com as consequências. Tenho muito orgulho disso. Minhas filhas não entendem muito. Elas ficam confusas, pois pensam que eu arrumo confusão em todo lugar que vou. Pode até ser. O que importa é fazer o que é certo, não o que é conveniente. Deve haver maneiras de não fazer concessões e não ser demitida. Um amigo me disse uma vez que tenho síndrome de justiceira e que seria legal se eu me tratasse. Tô fazendo análise.

Tem gente que se mantém por anos em empresas sem fazer nada, sem produzir nada, sem melhorar intelectual ou academicamente, só na base da autopromoção vazia. Tem um casal de professores nessa escola que vai longe assim. Desejo que fiquem lá pra sempre. Dizem que existe uma lei de atração ou de afinidade, algo do tipo. Só acho que a classe média alta conservadora de Brasília tinha que receber o bilhetinho na agenda informando que esses professores vão dar aula chapados de maconha. Sei lá, a título de ciência. 

Saí em julho e em outubro teve um concurso para a Secretaria de Educação do DF. Passei também. Dificuldades para a homologação do concurso no momento, mas vai dar certo. Não é exatamente o que eu queria nessa idade, a essa lonjura da vida, mas é o que "tá tendo", então bora pra próxima. Sei bem que as dificuldades das instituições públicas são outras e que há vários outros buracos mais embaixo. Sou nenhum pouco iludida, visse? Tô doidinha para as aventuras começarem.

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