PROFESSORA ELISABETE TENREIRO, Presente!
Sou professora.
Minha
família é cheia de professoras: mãe, avó, tia.
Pessoas muito importantes em minha vida pessoal
são professores.
Pessoas mais que importantes para o mundo são
professores.
PROFESSORES SÃO IMPORTANTES E ESSENCIAIS PARA A
HUMANIDADE!
Nos últimos 10 anos, especialmente, temos sido alvo
direto do fascismo: vigiados, cerceados, silenciados, desrespeitados,
menosprezados, explorados e humilhados.
Escolas, ou melhor, empresas privadas nos tratam
desumanamente nos sobrecarregando com preenchimento de 300 mil relatórios,
elaboração de planejamentos, criação de atividades, desenvolvimento de questões
e montagem de provas, criação de atividades e planejamentos específicos para
alunos atípicos SEM TEMPO HÁBIL e SEM REMUNERAÇÃO PARA TAL, visto que recebemos
apenas UMA HORA AULA para fazer essas tarefas e muito mais, pois temos que
corrigir todas as tarefas, dar visto nos cadernos, organizar as pastas e
portfólios de cada aluno, estar sempre lindas e bem arrumadas e ainda atender
os responsáveis que exigem que tal palavra não seja dita em sala, pois fere
suas crenças religiosas; ou que exigem que você não ensine tais páginas do
livro, pois estão difundindo "ideologia de gênero"; ou que exigem que
você não use um pano na cabeça, pois o filho está com medo; ou que exigem que
você não ensine que a pronúncia de "beach" não é com som curto, mas
sim longo, senão vira um palavrão te acusando de ensinar palavrão para os
alunos, sendo que você está justamente evitando o uso do tal palavrão; ou que
exigem que você reprima comportamentos afeminados de um aluno porque o outro
está incomodado; etc.
Comecei a dar aula em escola de Educação Básica
após sair traumatizada de empresa de "ensino" Superior que visava
apenas o recebimento de mensalidades sem qualquer cuidado com pesquisa,
elaboração de ementas atualizadas, cursos de extensão, revisão bibliográfica,
renovação de suportes midiáticos, produção intelectual docente ou discente,
muito menos aproximação com a comunidade. Cultos/celebrações fundamentalistas
cristãos ocorriam nos pátios durante intervalos ainda que não fosse uma
instituição religiosa e ai de quem se queixasse de não poder descansar a cabeça
no horário de descanso por conta da ladainha. Os mesmos entusiastas da bíblia
questionavam qualquer linha literária que mencionasse algo contrário ao que
seus pastores pregavam. Nem era eu que escolhia as obras. A ementa vinha
prontinha para as minhas mãos. Até apedrejado meu carro foi por conta de um conto
de Mia Couto. Apoio? Nenhum. Meus colegas? Silêncio total. Isso foi na era do
Vampiro Temer. Eu falava pra todo mundo parar de dar palco para aqueles
lunáticos, pois estavam ganhando força. Mal sabia eu que era o fascismo se
instaurando e um projeto muito bem-feito sendo executado.
Sofri. Tentei um concurso para Instituto Federal -
MEU SONHO! Demorei para conseguir parar e estudar para um concurso nessa vida
após 2 divórcios, muito machismo, uma filha doente, violência doméstica, outra
filha bebê, depressão, ansiedade, pânico, pânicos. Crescida em Taguatinga, quase desenganada por
professores de minha escola pública que diziam que eu jamais teria chance de
frequentar uma universidade. Passei no terceiro vestibular, em 1999. Era FHC,
UnB sucateada, porém, ainda ocupada apenas pela elite brasiliense. Aquela época
em que era moda falar que não tinha papel higiênico no banheiro, sabe? Não
somente fiz a graduação, como segui para o Mestrado e para o Doutorado, já com
o empurrão de pai Lula, Dilmãe e Bolsa Capes. Acompanhei o início de muitas
mudanças serem interrompidas por um golpe. Claro que eu engravidei no segundo
semestre de graduação, então, como disse um homem perdido esses dias: Gandhia,
você não fez UnB, você fez as disciplinas. Trabalhava, estudava, era mãe, tudo
ao mesmo tempo. Às vezes fazia música de alguma maneira torta. Sempre algum
homem me atrapalhava de alguma maneira certeira. Enquanto insistia em ser
mestre e depois doutora sem participar de todos os congressos e sem publicar
todos os artigos, dava aulas de inglês para ricos. Passei no concurso para o
IFB, mas não entre os primeiríssimos. Não fui convocada nem por Temer, nem por
Bolsonaro. Me convoca, Lula?
Muitas vezes, chefes não têm a menor ideia do que
você ensina e mandam você fazer coisas que vão totalmente DE encontro ao que
deve ser feito, ou seja, atrapalham em vez de ajudar.
Quando se dão conta de que você é muito mais
qualificada, começam a assediar. É cada maluquice... No meu caso, totalmente
desnecessário, pois nunca pretendi ser chefe de nada. Eu gosto é de dar aula.
Outras tantas vezes, em vez de termos nossa
autoridade respaldada pela instituição quando uma família vem questionar o
motivo pelo qual você contou ao aluno que a terra é redonda e que o vídeo que
ele viu no YouTube não dizia a verdade, chefes pedem desculpas à família e
garantem que a professora não vai mais "fazer isso".
Enquanto isso, little monsters vão achando que
resolvem tudo chamando mommy or daddy. Não gostei, demite ela.
Esse é o mundo privado, por enquanto.
Já, já chegam as armas.
No mundo público, já chegaram.
Lembrando que alunos são vítimas também, mas isso é
para outro texto.
Desisti das escolas privadas em julho do ano
passado após ter escutado que não existe racismo no Brasil. que todos os seres
são humanos, que não existem diferenças, que eu sou muito exagerada e que as
pessoas têm direito a ter opiniões diferentes. Eu gostava daquela escola até o
período anterior àquele semestre. Era outra direção e outras coordenações não
fascistas. Não sou conivente, não me calo e arco com as consequências. Tenho
muito orgulho disso. Minhas filhas não entendem muito. Elas ficam confusas,
pois pensam que eu arrumo confusão em todo lugar que vou. Pode até ser. O que
importa é fazer o que é certo, não o que é conveniente. Deve haver maneiras de
não fazer concessões e não ser demitida. Um amigo me disse uma vez que tenho
síndrome de justiceira e que seria legal se eu me tratasse. Tô fazendo análise.
Tem gente que se mantém por anos em empresas sem
fazer nada, sem produzir nada, sem melhorar intelectual ou academicamente, só
na base da autopromoção vazia. Tem um casal de professores nessa escola que vai
longe assim. Desejo que fiquem lá pra sempre. Dizem que existe uma lei de
atração ou de afinidade, algo do tipo. Só acho que a classe média alta
conservadora de Brasília tinha que receber o bilhetinho na agenda informando
que esses professores vão dar aula chapados de maconha. Sei lá, a título de
ciência.
Saí em julho e em outubro teve um concurso para a Secretaria de Educação do DF. Passei também. Dificuldades para a homologação do concurso no momento, mas vai dar certo. Não é exatamente o que eu queria nessa idade, a essa lonjura da vida, mas é o que "tá tendo", então bora pra próxima. Sei bem que as dificuldades das instituições públicas são outras e que há vários outros buracos mais embaixo. Sou nenhum pouco iludida, visse? Tô doidinha para as aventuras começarem.
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